'Não se pode exigir que todos leiam tudo'
FOLHA - O sr. é convidado com frequência a participar de eventos literários. De suas andanças por regiões diversas do País, há algum assunto dominante atualmente nas palestras e mesas redondas? O que mais tem inquietado ou mobilizado os leitores?
Ignácio de Loyola Brandão - Sou um dos maiores viajantes por este Brasil. Tenho visto bienais, feiras, flips, flipiris (de Pirenópolis) e até fliperamas. Curiosamente, as perguntas são as mesmas, não há variação e originalidade: por que escreve? Como escreve? De onde nascem as ideias?. Sinto que falta inquietação, indignação, busca sôfrega de um novo mundo. Uma pergunta é recorrente: como faço para escrever e ficar famoso? Isto não sei responder. Mas o assunto me inquieta, tanto que escrevi um romance a respeito, ''O Anônimo Célebre'', que acaba de ser lançado nos Estados Unidos, pela editora Dalkey, de Illinois.
Fala-se há muito tempo que o brasileiro lê pouco, que há um excesso de editoras e lançamentos para poucos leitores. O sr. também constata essa realidade? Nada mudou nas últimas décadas?
Nunca se editou tanto no Brasil. É claro que se lê mais. Temos que pensar na fragmentação do público leitor: há quem só leia autoajuda, outros informática, outros best-seller, outros livros técnicos, e assim por diante. Mas não se pode exigir que todos leiam tudo, isso não existe. Tivéssemos uma escola fundamental decente, formaríamos mais leitores, certamente. Tivéssemos mais biblioteca, a situação seria outra. Agora, não venham me dizer que é bom ler Paulo Coelho, porque com ele se conquista outros leitores. Está provado que não. Que lê o Paulo, só lê o Paulo. Quem lê Stephenie Meyer, só lê essa moça, e assim por diante.
Seu último livro é uma compilação de crônicas publicadas no jornal Estado de S. Paulo. O sr. acredita que a classificação da crônica como gênero menor ainda povoa a cabeça da crítica ou é uma questão já superada?
Acabei de publicar pela editora Objetiva ''Crônicas Para se Ler na Escola''. Quanto à crônica, não é um gênero menor, em absoluto. Há cronistas ruins, cronistas péssimos, sub-literatos, porque todo mundo pensa que é fácil fazer crônica, assim como poesia. Não é. A crônica teve Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Machado de Assis, João do Rio, Olavo Bilac, João Ubaldo Ribeiro, assim como tem Marina Colasanti, Zuenir Ventura, Affonso Romano de Sant'Anna, Verissimo, para citar alguns. A crônica mostra o cotidiano brasileiro, retrata momentos da sociedade, como vivemos, falamos, nos divertimos, etc. Ela tem de ser tratada como literatura, porque é a transfiguração da realidade.
O sr. sempre esteve vinculado à imprensa. Qual a importância do jornalismo para sua escrita literária?
Eu sempre precisei sobreviver, porque a venda de livros não garante a existência de ninguém, a não ser de dois ou três autores. Sempre fui jornalista, porque a vida era movimentada, ágil, diversificada, nada burocrática. Boa parte de meus livros saiu de experiências vividas, do ''Zero'' a ''Bebel'', do ''Não Verás'' a ''Cadeiras Proibidas''. O jornalismo me ajudou na linguagem, na habilidade de olhar em torno, do texto econômico, enxuto, na observação de tudo. Incusive me ajudou muito na estruturação de contos e romances.
O sr. começou a carreira de jornalista escrevendo crítica de cinema em Araraquara. Essa área deixou de interessá-lo? Aliás, como o sr. avalia a crítica de cinema atual no Brasil?
Quis ser roteirista e diretor de cinema. Desisti pela preguiça. É mais fácil escrever um romance de 500 páginas do que fazer um filme. Quanto à crítica, caí fora no dia em que descobri que nunca coloquei um espectador numa sala, nem tirei. A crítica no Brasil não existe, seja de cinema, seja de literatura. É tudo opinião apressada, sem base, chute.
O sr. é um entusiasta dos e-books ou um ferrenho defensor dos livros impressos?
Sou entusiasta do ato de escrever, amo meu ofício. Se o suporte for o e-book, que seja. Se for o papel, que seja. O que me interessa é o que tenho a dizer, a contar. Fica todo mundo alarmado, excitado, enlouquecido, apavorado. Besteiras. O que nunca vai deixar de existir é a literatura.
O sr. acredita que a linguagem concisa do Twitter e da internet de uma forma geral influenciará a escrita literária?
O Twitter vai influenciar a existência de páginas em branco. Escrever cada vez menos. Usar menos palavras. Como? Se a literatura é a palavra? Quanto à internet só o futuro poderá responder. Está tudo muito novo, verde, ninguém sabe o que pode acontecer amanhã. Ou daqui a um minuto. Tudo é velocidade, rapidez. Para quê? Para nos levar onde?
O sr. já colocou um ponto final no perfil biográfico de Ruth Cardoso? É um livro institutucional encomendado ou uma pesquisa nascida de sua própria escolha e interesse? Qual a previsão de lançamento?
Já estamos na última prova. Foi um livro encomendado no sentido de que me chamaram e perguntaram: gostaria de escrever a biografia de Ruth? Respondi que sim, somos conterrâneos, a mãe dela me deu aulas, o pai dela era contador no jornal em que trabalhei em Araraquara, ''O Imparcial''. Nossos referenciais durante anos foram os mesmos. O primeiro namorado dela, hoje com 84 anos, é um de meus melhores amigos em Araraquara. Além do mais, aquela figura me impressionava, era fã dela. Nenhuma primeira-dama fez o que ela fez. Ela modificou o conceito de primeira-dama, foi útil, trabalhou pelo país. Não foi como as outras uma figura decorativa, frequentadora de chás, coquetéis e vernissages. Era uma catedrática culta e vivida que mudou o ensino da antropologia no Brasil. O livro vem revestido de ternura, mas sem puxa-saquismo, bajulações, vaselina.
O sr. também está escrevendo uma continuação do livro ''O Menino que vendia palavras''?
Terminei. ''O Menino que Perguntava'' está na editora, em fase de ilustração. Virá depois um terceiro: ''O menino que desaparecia''. Esse menino quem foi? Eu. Quem é? Sou eu. Quero também escrever a história do meu avô José Maria, pai de meu pai, um homem fabuloso, marceneiro, escultor, que um dia, no começo do século 20, construiu um carrossel. Já tenho o título: ''Os Olhos Loucos dos Cavalos Cegos''.
Que semelhanças e diferenças o sr. identifica entre o Brasil de hoje e o Brasil retratado - ainda que de forma alegórica - em livros como ''Zero'' e ''Não Verás País Nenhum''?
''Zero'' é o retrato de um Brasil que foi. O país dominado pela ditadura e pela violência. ''Não Verás'' é o país que está sendo, governado pela corrupção, com uma elite podre, os políticos desarvorados e gangsterizados, o desmatamento prosseguindo, um futuro incerto.





