Não se constróem bombas com palavras
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domingo, 28 de janeiro de 2001
De Londrina Especial para a Folha 2 
Quando o trabalho de um homem é dizer alguma coisa e ele não diz nada, o sol parece estar sempre atrás de nuvens. Quando o trabalho de um homem é dizer algo e ao dizê-lo percebe que a ação é mais forte que as palavras, restam-lhe duas opções. Ou deixa de dizer e parte para o fazer, para a ação, ou se transforma num homem de voz que nada diz.
Essa situação, relativamente comum na existência humana, é o beco sem saída em que se encontra Sachs, personagem do romance Leviatã do escritor norte-americano Paul Auster. A obra chega às livrarias nesta semana, através da Companhia das Letras.
Sachs é um promissor escritor que exerce com afinco sua profissão até o dia em que o acaso tromba com sua vida. A partir do impacto, se dá conta que fazer da vida uma história é mais intenso do que fazer uma história da vida. Nesse momento, troca as palavras pela ação. Passa a viver um personagem que escolheu com o auxílio da vida e do acaso ou talvez a vida e o acaso lhe escolheram.
O termo Leviatã, segundo a tradição bíblica, remete ao monstro que apavorava os habitantes da Terra. É geralmente interpretado como o arquétipo do Caos que um dia foi vencido pelo deus dos hebreus. Levitã é exatamente o título do livro que Sachs escrevia quando o acaso lhe puxou o tapete, colocando em suas mãos um palito de fósforo e um bomba numa noite escura. A superfície onde Sachs riscará o fósforo é mistério, mas a chama revelará o imprevisto em sair para uma caminhada em dia de sol e voltar molhado pela chuva.
Peter, o personagem incorporado por Paul Auster no romance, é um velho e fiel amigo de Sachs, embora esteja de olho em sua mulher. Ele acabará escrevendo um livro contando a real história de Sachs. O título da obra será Leviatã, que nada mais é do que o livro escrito por Paul Auster.
Sachs, o escritor, depois de um vírgula bem acentuada em sua vida, uma queda do terceiro andar de um edifício, depois de outra vírgula, um inesperado assassinato cometido por ele e, logo depois, uma outra vírgula, a compreensão de quem havia assassinado, como em sua própria vida mais uma vírgula, torna-se um terrorista.
Sua missão é explodir réplicas da Estátua da Liberdade espalhadas pelos Estados Unidos. Se o original da escultura se transformou num fetiche falacioso e idiota, as réplicas representam o fetiche do fetiche, a falácia da falácia, a idiotice das idiotices.
Em Leviatã, Auster coloca na bandeja o acaso, a coincidência, o inesperado, servindo ao leitor o prato de um escritor num beco sem saída. Um testemunho quase autobiográfico levando em conta o questionamento de seu próprio trabalho como escritor: Estou sempre em guerra com aquilo que faço. É certamente um jeito estúpido de viver, fazendo coisa que ninguém precisa ou deseja o mundo pode muito bem passar sem os livros que escrevo.
Quando Sachs abandona a literatura para se tornar um terrorista solitário, sabe que ao explodir réplicas da Estátua da Liberdade (símbolo máximo dos Estados Unidos) deixando no local mensagens escritas em bilhetes, está dizendo muito mais do que poderia narrar num romance. Ou melhor, aquilo que tem a dizer chega com maior impacto como um atentado do que como um livro.
Ao narrar a história de Sachs, Auster está contando justamente a história de seu questionamento pessoal diante da escrita, do fazer literário. A impossibilidade da arte, da escritura, é uma fantasma que coloca insônia em seus travesseiros: escrever é um absurdo, onde o sentido não existe, é apenas inventado.
Leviatã, escrito em 1992, é a obra mais nervosa de Auster (autor de romances como Mr. Vertigo, Música do Acaso, A Invenção da Solidão e Cortina de Fumaça). Faz da política psicológica um exercício existencial. (M.L.)
Leviatã de Paul Auster, editora Companhia das Letras (telefone 11-3846-0801), tradução de Rubens Figueiredo, 320 páginas, R$ 29,50.


