Edson Cordeiro fala, em entrevista à Folha2, do glamour no seu trabalho, do possível preconceito dos programadores das rádios e de homossexualidade
O pop dos anos 70 tinha mais graça e glamour que na década de 80?
Tudo que é feito na dance music hoje é inspirado no que foi feito na década de 70, na era disco.
Que fascínio essa era exerce em você?
Muita coisa. Por exemplo, tenho 32 anos e nessa época eu era evangélico, religioso e muito fervoroso. Eu adorava mas não podia curtir isso. Curtia só música evangélica... Era a época das Frenéticas, Donna Summer, mas era uma coisa proibida para mim... Eu gosto muito da parte glamourosa dessa época. E a parte do meu trabalho agora é também o glamour, é fazer a coisa brilhar. Acho que a música pop brasileira estava precisando ficar mais engraçada, mais humorada, mais glamourosa.
Como é que se explica um disco, o anterior, ter vendido 150 mil cópias, ter sido paparicado e não ter tido uma só música tocada nas rádios? É preconceito?
Essa é uma pergunta muito boa para se fazer aos programadores de rádios. Eu realmente não entendo... Eu adoraria que tocasse. Não tenho nada contra eles, nunca briguei com eles mas eles têm um grande bloqueio. Eu não quero não tocar no rádio. Eu quero tocar no rádio, mas essa pergunta que você me fez tem que ser feita aos programadores.
Por que você está usando a voz de maneira comedida? Ou seja, usando mais registros médios, graves e agudos, mas não os agudíssimos?
É, embora em ‘‘Perigosa’’ tem um grande agudo.
Mas não tem mas aquela coisa de mostrar o vozeirão. Era fase, acabou?
Não, eu continuo mostrando tudo o que tenho. Agora, se o público quer ver sangue eu vou dar sangue enquanto tiver. Mas eu acho que há várias maneiras de se fazer isso. ‘‘Music and Me’’, por exemplo, é uma música muito difícil de cantar, tecnicamente falando, porque foi cantada pelo Michael Jackson quando era criança. Quer dizer, a música tem uma partitura aguda, tem momentos suaves, mas é muito complicada de cantar.
‘‘Conga Conga Conga’’, da Gretchen. Além de ser cult, o que essa música tem de legal para você?
É uma homenagem a nossa diva camp, que eu adoro e é minha amiga. Acho assim: você pega Marilyn Manson, George Michael... lá fora as pessoas têm mais coragem de fazer as coisas, de chutar o pau da barraca... Aqui no Brasil, com exceções como a Cássia Eller que é maravilhosa e irreverente, a gente fica esperando as pessoas fazerem para admirar. Eu estou tendo coragem de fazer coisas que as pessoas têm certo pudor. Eu não tenho pudor de cantar ‘‘Conga Conga’’ ou ‘‘Perigosa’’ e falar ‘‘eu sei que eu sou bonita e gostosa’’.
Ou mesmo cantando ‘‘Amor de Rua’’, aliás a única música inédita, que só não é mais gay por falta de metros quadrados, né?
Sim... Acho que se eu não falar não vai ter ninguém com vontade de falar, com a autonomia para falar. Quer dizer, tem a Cássia Eller que cumpre essa função do lado dela... E eu estou do meu lado fazendo as coisas que... É um dialeto (referindo-se aos termos utilizados no mundo gay) que existe, é uma vida que não dá para fazer de conta que não existe...
Isso é verdade...
Então eu faço não porque ninguém faz, mas porque isso faz parte da minha vida, é autêntico.
Mas você não teme ficar como porta-voz ou um ícone gay?
Eu sou iconoclasta. Minha idéia, na verdade, é desmitificar as coisas. Essa coisa de ícone não me interessa. O que as pessoas querem é... é...
Colocar rótulos?
Exato. E isso, às vezes, não depende da sua vontade...
Você acha que saiu do armário, fez seu outing, ou melhor, assumiu publicamente sua homossexualidade na hora certa?
As pessoas dizem assim: ‘‘Ah, você se revelou.’’ Acho que só se revela o que está escondido. E eu não me escondi, não fui pego no banheiro para ter que falar: ‘‘Ah, eu sou!’’ Eu tinha que chamar a atenção para um assunto, no começo, que era minha voz e meu trabalho. E agora tenho mais coisas para falar do que simplesmente falar em três oitavas, a cor do meu cabelo. Agora que todo mundo me conhece posso falar coisas que podem ajudar algumas pessoas. Falar, por exemplo, que estou dentro da sociedade, que tenho uma família maravilhosa e que me respeita. (A.M.J.)

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