Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Os cenários portentosos, amparados por tecnologias e efeitos visuais estão ocupando o espaço que deveria ser da interpretação. É uma típica crise onde saem o gesto e a palavra, e entra a tecnologia. ‘‘O aparato está me enchendo o saco. Quero ver atores, não vejo mais atores’’, comentou um dos maiores nomes do teatro nacional, o cenógrafo Gianni Ratto, que trocou a Itália pelo Brasil.
Para ele os artistas ‘‘foram assassinados por vários ‘thomazinhos’ que estão por a풒. Como a frase foi dita numa roda de repórteres e passou em branco, Ratto achou por bem se certificar: ‘‘Sabem o que eu quis dizer?’’ Pelo jeito ninguém percebeu a tacada certeira em Gerald Thomas e todos aqueles que rezam pela mesma bíblia. Quem infla os ‘‘thomazinhos?’’ É a mídia ou o público? ‘‘É um pouco a soma de tudo. A imprensa infla e o público vai atrás, sem querer’’, responde.
O cenógrafo veio a Curitiba como um dos convidados do 9º Festival de Teatro para lançar o livro ‘‘Antitratado da Cenografia’’, que serve de reflexão à essa arte. Ele discute os aspectos históricos do espaço cênico e chega a propor, em alguns casos, sua própria abolição. Uma coisa é certa: é impossível separar a cenografia dos demais elementos de uma peça.
Presente na capital desde a abertura do evento, Gianni Ratto não se limitou apenas à literatura. Aproveitou para acompanhar as peças em cartaz, indo de um teatro a outro. Com certeza comparou as tendências cenográficas, mas como diz, não lhe interessam ‘‘os grandes criadores, áos matadores, assassinos da interpretação; os grandes efeitos, a informática, a tecnologia espacial. Não quero fazer uma viagem espacial, quero fazer uma viagem para dentro da alma do homem, isto sim’’.
Ratto arrepia quando ouve exclamações sobre a ‘‘bela cenografia’’. ‘‘Não tem nada disso, ela não é elemento decorativo, não é etiqueta. Porém, um erro clássico é o de se criar cenários para deleite dos olhos, mas sem função alguma para quem está em cena.’’
A propalada multimídia no teatro, que tanto ocupou espaço ultimamente nos cadernos culturais, não passa de ‘‘multimierda’’ para o cenógrafo. ‘‘Tudo que está ligado aos valores financeiros, econômicos está ligado à superficialidade da publicidade’’, detona.
‘‘A redescoberta da palavra é que é o fator realmente importante. A multimídia tem a sua importância, não discuto, mas me interessa redescobrir o homem no momento no qual ele fala uma palavra de poesia. Este é um momento que me interessa realmente’’, reitera o artista.
‘‘O caminho a ser seguido é a beleza da palavra pura. Fumaça para que?’’, ele pergunta. Essa resistência não é ao elemento utilizado, mas ao conceito. ‘‘Estou derrubando uma visão que, a meu ver, está empobrecida. Quanto mais efeitos, menos poesia’’, disse em Curitiba.
O autor de ‘‘Antitratado da Cenografia’’ já está debruçado em uma nova obra, que se chamará ‘‘Hipocritando’’. A palavra vem de ‘‘hipocritez’’, que em grego significa ‘‘ator’’. ‘‘É um livro sobre a interpretação – eu quero trabalhar num clima de valores não necessariamente técnicos, de teorias. Quero falar de um clima dentro do qual, genericamente, o ator está situado no espaço, no tempo, nas dimensões que pode criar. Quero redescobrir a essência – e é isso que me empolga.’’