Não estamos sós
Não estamos sós
Fábula fantástico-filosófica, Contato é ficção-científica que busca e recebe respostas do Universo
ReproduçãoJodie Foster é a Ellie Arroway, cientista abnegada e a um passo da mais profunda e tediosa chaticeNada como uma equipe de marketing do outro mundo trabalhando para seres cinematográficos deste planeta. Secretamente prevista, uma polêmica recente deu novo impulso ao lançamento de Contato, filme que entra em cartaz hoje nos cinemas brasileiros . Muito atentos, os homens de venda da TriStar contrabandearam para o roteiro do filme cenas televisivas de dois pronunciamentos do presidente Bill Clinton. Ouvidos fora de contexto, nada a ver com nada. Ou melhor, um deles até pertinente, com comentários sobre a possibilidade de vida em Marte. O outro, contendo referências a algum aborrecimento causado por Sadam Hussein. Mas o melhor da história é que os discursos, uma vez manipulados, parecem ter tudo a ver a com o argumento. Resultado: Clinton não gostou, esbravejou, reclamou muito mas acabou não tomando nenhuma providência. Que não é bobo nem nada, implicando com a mais eficaz ponta-de-lança ideológica já produzida no mundo.
Três anos depois de recolher um punhado de prêmios destinados a Forrest Gump na noite do Oscar, o diretor e produtor Robert Zemeckis está de volta com este Contato, menos uma movimentada aventura de sci-fi do que um momento reflexivo sobre o comportamento humano diante do desconhecido. Por isso mesmo que ninguém espere um encontro imediato e muito menos do terceiro grau. Se comparado a uma obra de arte, o filme de Zemeckis estaria bem mais para a abstrato do que para o figurativo. Apesar dos indefectíveis efeitos, que custaram boa parte do orçamento de 90 milhões de dólares.
O silêncio do Universo Jodie Foster, que prefere compor seus personagens sempre em situações-limite ou distantes dos padrões comportamentais medianos, faz aqui a dra. Ellie Arroway, cientista abnegada e a um passo da mais profunda e tediosa chatice. Para os outros, bem entendido, que a consideram até desprezível. Ela é uma radio-astrônoma que passa todo o tempo rastreando possíveis mensagens de ETs espalhados pelo imenso quintal cósmico. Um dia, bem, um dia aparece o tal sinal de vida lá fora, para recompensa de Ellie, que decodifica a mensagem e chega a uma conclusão espantosa: a mensagem vem da estrela Vega, distante da Terra 26 milhões de anos-luz. São vários números primos, uma imagem de Hitler inaugurando as Olimpíadas de Berlim e instruções práticas - um faça você mesmo - sobre como construir uma nave espacial que deverá levar alguém a Vega. De posse dessas informações, e muito antes de embarcar numa longa jornada sideral, a dra. Ellie ainda vai passar por maus momentos, não por causa dos seres de Vega, mas atropelada pela insensatez, pelo fanatismo, pela paranóia de seus semelhantes deste planeta mesmo, pela deslealdade e pela sede de poder.
No rastro de 2001 ? Alguns observadores andaram garimpando correspondências entre 2001 - Uma Odisséia no Espaço, o top-model do gênero e este Contato. Não custa conferir os excessos de cortesia para com o filme do diretor Zemeckis, que aliás nada tem de Kubrick. Entre as referências comuns aos dois filmes estariam o isolamento da astrônoma e do astronauta David Bowman, e a jornada final da heróina rumo à estrela Vega.
Zemeckis tentou arrancar da memória outros nomes para fazer a solitária e decidida dra. Ellie. Se você olhasse todas as atrizes vivas ou mortas para fazer o papel, a mais próxima de Jodie talvez fosse a jovem Katherine Hepburn. Jodie sempre trouxe para as filmagens a mesma combinação de beleza, graça e força, sem sacrificar a feminilidade. E trouxe o intelecto sem sacrificar o humanismo. Por sua vez, a atriz costuma dizer que a profissão é apenas um processo emocional e físico, e que a inteligência não é necessária.
Não foi apenas o recente episódio Clinton que quase trouxe complicações para o filme. A gênese de Contato já tinha sido muito delicada. O astrônomo Carl Sagan e a mulher dele, Anne Druyan, escreveram um primeiro roteiro em 1980, em parceria com a produtora Ann Obst (Sintonia de Amor), que acabou ficando com os direitos. O filme andou pela cabeça de Roland Joffé e George Miller, mas acabou nas mãos de Zemeckis, que deu um tempo por causa do projeto Forrest Gump. Carl Sagan morreu em dezembro do ano passado mas nem sua morte impediu que seus herdeiros fossem processados por Francis Ford Coppola, que alegou que ele e o astrônomo tinham discutido a idéia de contatos alienígenas para um programa infantil de televisão.
(C.E.L.J)
Contato - (Contact) - Estados Unidos, 1997. Direção: Robert Zemeckis. Com Jodie Foster, Matthew McConaughey, James Woods, John Hurt, Tom Skeritt.





