São Paulo, 9 (AE) - A sequência inicial do filme peruano "Não Conte a Ninguém" promete um ensaio antropológico sobre entropia burguesa. Uma criança, educada por pais católicos e conservadores, tem sua primeira experiência homossexual num acampamento. Um corte abrupto mostra essa criança, agora adolescente, confessando seus pecados a um padre. Novo corte. O pai desconfia do filho e o leva para uma caçada, mas o menino prefere "caçar" o filho do capataz da fazenda. Na volta, o pai atropela um índio peruano na estrada. Nem se dá ao trabalho de verificar se está morto. Montando essas cenas, o espectador pensa que vai ver um filme sobre como um homossexual cresce no Peru, um país que, como o Brasil, foi colonizado por degredados e predadores. Não é exatamente o que ocorre.
O diretor Francisco Lombardi achou insuficiente denunciar a (falsa) tolerância de uma sociedade patriarcal com os jogos sexuais entre machos (desde que não se conte a ninguém, justificando o título do filme). Decidiu avançar na crítica ao signo monolítico da cocaína como a droga social que transformou os jovens em consumistas idiotizados. A homossexualidade de Joaquin, um garoto burguês em crise de identidade, passou, então
para um plano secundário.
Certo, o diretor Francisco Lombardi é um homem cheio de boas intenções. Quer criticar a uniformização cultural que reduziu esses jovens a seres inarticulados, mas é o tipo de crítica que, no cinema, funciona ao contrário. O universo das drogas e do sexo promíscuo sempre exerceram um fascínio diabólico sobre o público. Lombardi enche a tela com belos corpos jovens em cenas intermináveis de malabarismo sexual, consumo de pó e porres homéricos.
Assim, o que poderia ser uma expressão de repúdio ao patriarcalismo do peruano branco ou a denúncia do genocídio de seu antípoda vira um filme sedutor sobre um gay deslocado que procura a integração social - justamente no sufocante universo burguês. Ou seja, vira um filme sobre um conformista que troca a genuína expressão de sua sexualidade pela máscara repugnante dos pais. "Não Conte a Ninguém". Comédia dramática. Direção de Francisco J. Lombardi. Com Santiago Magill, Christian Meier, Lucía Jiménez.

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