São Paulo, 10 (AE) - Ele pertence à história do cinema brasileiro. Rodolfo Nanni fez nos anos 50 "O Saci", baseado na obra de Monteiro Lobato. O filme antecipou o Cinema Novo: nele trabalharam, como assistentes, Nelson Pereira dos Santos e Alex Viany. Sem filmar desde 1971, quando fez "Cordélia, Cordélia", baseado na peça "No Começo É Sempre Difícil", Nanni prepara-se para voltar à direção. Os quase 30 anos decorridos representam um hiato grande, mas não o assustam. Na verdade, ele nunca se afastou do cinema. Como professor titular da Faap, dá aulas de direção no curso de cinema. Nanni busca recursos para fazer "Tarsila".
É um filme sobre a pintora Tarsila do Amaral. Começa nos anos 90, quando "Abaporu" foi vendido no célebre leilão da Christies. Por meio de flash-backs, a história recua no tempo para mostrar Tarsila menina, adolescente, seu primeiro casamento. Mas o enfoque privilegia o período de dez anos em que ela viveu em Paris, estudando pintura com Léger e fazendo amizade com intelectuais franceses como Blaise Cendrars. Nanni já tem a sua Tarsila. Convidou a atriz Bete Coelho, de "Cacilda!", que leu o roteiro e se entusiasmou. "Ela é incrível", resume Nanni.
Com a atriz e o roteiro, ele busca patrocínio para o projeto. A produção, já aprovada pelo Ministério da Cultura e inscrita na Lei do Audiovisual, está orçada em R$ 5 milhões. Prevê filmagens na França. Nanni espera conseguir um parceiro francês. Negocia com o produtor Guy Perol, que foi seu colega no Institut des Hauts Études Cinématographiques (IDHEC). O curioso é que Nanni foi para Paris estudar pintura - é um elo forte que ele tem com Tarsila. Logo descobriu que estava mais interessado em cinema e entrou para o IDHEC.
Embora pronto, o roteiro de Tarsila não é definitivo. Nanni está tendo a parceria da roteirista e diretora Karine Douplitzki, ligada a Régis Débray, que está reescrevendo o material. Dia 20 ele embarca para a França para encontrar-se com ela. Na versão de Karine, "Tarsila" ganhou um subtítulo, "LOeil Antrophague". O olho antropofágico de Tarsila quer ganhar as telas para ampliar o debate sobre a obra da artista e o modernismo.
Nanni fala da "temeridade e do prazer" que é criar os diálogos desses verdadeiros ícones da cultura brasileira. Tarsila, Mário e Oswald. Mário é Mário de Andrade, claro. Oswald
Oswald de Andrade, com quem Tarsila viveu um romance. Às vezes, os diálogos são tirados ou inspirados na correspondência que mantinham quando Mário escrevia para os dois em Paris. Desancava-os por querer imbuir-se de culturas alienígenas e os desafiava para um duelo intelectual quando voltassem.
Os diálogos são criados levando em conta a maneira de ser e o comportamento pessoal de cada um, tão diferentes, apesar da amizade que os unia e do fato de seguirem a mesma trilha modernista. Nanni dá uma prévia, antecipando o diálogo, inventado no roteiro, entre Tarsila e Oswald sobre "Memórias Sentimentais" de João Miramar:
"Tarsila - Afinal, quem é João Miramar? É auto-retrato?
Oswald - Auto-retrato é só você quem faz. João Miramar é homem do século 21. Mas eu sei que ninguém vai ler, além de você e dois ou três amigos.
Tarsila - Mon amour pessimiste.
Oswald - Eu devia era fazer cinema. Fazer uns "Nosferatus" da vida. Umas 200 pessoas iam ver. Fazendo fila e pagando entrada.
Tarsila - Memórias sentimentais. Afinal, se é homem do século 21, como pode ter memórias hoje e ainda sentimentais? Quem é esse homem?
Oswald - Sou eu.
Tarsila - Meu pequeno gênio que nasceu cem anos antes. O horrível é que nenhum de nós vai chegar lá.
Oswald - Entramos no século engatinhando, 1900! Vimos fogos de artifício no céu. Depois, ficou tudo escuro de novo. É preciso encontrar um jeito de manter a fagulha acesa. Mas eu quero mesmo é ser rojão. Não quero ser traque. E você?
Tarsila - Eu quero segurar a fagulha."
A paixão por este projeto tão sério arrebata Nanni e o leva para a frente neste momento em que, segundo ele, "está tão difícil conseguir parceiros da classe empresarial, o que praticamente impede a realização de qualquer projeto de cinema e cultura em geral." Interessados em participar da produção podem fazer contato com a produtora de Nanni, a Akron, pelo tel. (011) 3742-7200 ou pelo fax (011) 3743-5648.

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