São Paulo, 29 (AE) - Depois de "A Dona da História", com Marieta Severo e Andréa Beltrão, é a vez de estrear em São Paulo "Uma Noite na Lua", monólogo interpretado por Marco Nanini, mais uma comédia de grande sucesso de público dirigida e escrita pelo pernambucano João Falcão. Nanini fará um ensaio aberto ao público sábado, antes da estréia oficial, no próximo fim de semana.
O personagem de "Uma Noite na Lua" é um dramaturgo fracassado, um homem cheio de idéias geniais jamais concretizadas, que acaba de ser abandonado por sua mulher, Berenice. A peça flagra-o numa noite especial de sua vida: ele retorna de uma festa na qual garantiu a um ator famoso ter escrito um monólogo cujo ponto de partida é um homem pensando no palco, exatamente o que o ator estava procurando para levar à cena.
Depois de intrometer-se na conversa do ator, ele promete entregar no dia seguinte o tal texto. Agora, só tem um probleminha: escrever o texto. Durante uma noite inteira ele se divide entre o desejo de concentrar-se para criar sua peça e a necessidade de espantar da mente a imagem de Berenice. Os bons e maus momentos da relação e os motivos pelos quais ela o abandonou teimam em voltar à sua mente.
Sob pressão - Falcão não criou sua peça numa única noite
mas também a criou sob pressão e, assim como sua criatura, especialmente para um ator - Nanini. Mas enquanto o seu angustiado personagem não tem nenhuma intimidade com o famoso ator para quem vai escrever, a afinidade artística entre Falcão e Nanini já foi mais que testada. Depois de ter atuado em vários episódios do programa "Comédia da Vida Privada" criados e dirigidos por Falcão na TV, Nanini protagonizou "O Burguês Ridículo", na adaptação da obra de Molire feita em parceria por Falcão e Guel Arraes.
Foi durante o processo de ensaios no palco que surgiu a idéia de fazer o monólogo. O trabalho deveria ser criado com calma, mas o cancelamento do que seria uma longa turnê de" O Burguês" pelo interior do Brasil acelerou o processo. "Fui criando o texto de "Uma Noite na Lua" durante os ensaios, com a data da estréia já confirmada", conta Falcão. Produtor, autor e diretor, Falcão ensaiava durante o dia e escrevia o texto à noite.
"Três meses parece muito para escrever um texto, mas como diretor e produtor eu tinha de dar informações sobre o espetáculo como um todo e não podia, duas semanas depois, inventar outra coisa, outro final, por exemplo, completamente diferente", conta. A pressão do tempo aumentou a sensação de semelhança entre criador e criatura. "Teve momentos em que coloquei propositamente coisas muito diferentes de mim no personagem porque o distanciamento era necessário, até para criticar."
Num aspecto Falcão difere radicalmente de seu personagem. Com 20 anos de experiência no teatro, jamais escreveu um texto para ficar guardado na gaveta. Embora se tenha tornado conhecido do grande público a partir de sua mudança para o Rio, o teatro o atraiu desde muito cedo e ele fez várias montagens no Recife. "Minha primeira formação foi mesmo musical; eu queria ser o Mick Jagger."
Duas montagens teatrais fascinaram Falcão: "Macunaíma"
de Antunes Filho, e "Trate-me Leão", de Hamilton Vaz Pereira. "Essas peças me fizeram ver que o teatro podia ser uma coisa muito legal", lembra. "Não eram muitas as coisas que chegavam até o Recife, embora lá houvesse um movimento teatral muito bacana." Entre outros, cita o grupo Vivencial, de Olinda, como representante desse movimento local.
Humor puro - Sem jamais ter cursado uma escola de dramaturgia, Falcão desenvolveu sua carpintaria teatral, bastante elogiada, diretamente no palco. "Não escrevo textos, escrevo peças", diz. Criadas para existir na interação de todos os elementos cênicos, as comédias de Falcão têm entre suas virtudes o fato de fazer rir com personagens comuns, postos em situações cotidianas, bem reconhecíveis pela classe média, sem apelar para o humor preconceituoso, para o humor grosseiro nascido da ridicularização de minorias ou outsiders.
Falcão chega a definir "Uma Noite na Lua" como uma espécie de homenagem a um outsider, um personagem não enquadrado no mundo fashion. "Gosto de falar de gente comum", diz.
Ele classifica a personagem de "A Dona da História" como uma jovem de 20 anos que cresceu vendo sessão da tarde e quer viver um grande amor. Já o dramaturgo é intepretado por Nanini como um homem fragilizado, que não pode ser rotulado nem mesmo como aquele homem comum integrado, que vai ao banco, paga suas contas, trabalha e ganha o suficiente para contentar sua família ou seduzir uma mulher.
"Ele sente nessa noite que perdeu e não só a mulher." O personagem não possui adrenalina para acompanhar a velocidade das mudanças do mundo contemporâneo. Falcão afirma não ter pretendido criticar o comportamento do personagem, mas sim do mundo materialista e superficial que o pressiona. "Claro que ele é patético tentando dar uma grande virada em sua vida, tentando transformar-se naquilo que esperam dele - ou pelo menos ele acha que esperam e talvez esperem mesmo -, mas o tratamento dado a isso é carinhoso", diz. Serviço - Uma Noite na Lua. Monólogo. Texto e direção de João Falcão. Com Marco Nanini. Duração de 1h20. Sábado, às 21h30. R$ 10,00. Teatro Cultura Artística - Sala Esther Mesquita. Rua Nestor Pestana, 196, tel. 258-3616. Estréia marcada para o dia 6/8

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