Nana no mar de Caymmi
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sexta-feira, 25 de outubro de 2002
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
O mar de Caymmi está mais quente, como a barriga da mãe da gente. A voz morna e acolhedora de Nana, enfim, se rende unicamente à obra do patriarca da boa música baiana, o velho e doce Dorival. Em ''O Mar e o Tempo'', a intérprete revirou o baú do pai e de lá buscou catorze canções, entre elas uma inédita, o samba-canção ''Desde Ontem'' a mais bonita faixa do disco, apoiada pelo bandolim de Pedro Amorim. O nome do disco é o mesmo da biografia de Dorival Caymmi, escrita por Stella Caymmi, filha de Nana. Lançada no final do ano passado, viria a público juntamente com o disco-tributo de Nana. A idéia acabou não vingando. ''A idéia era essa, mas minha filha adiou muito o lançamento desse livro e eu continue trabalhando, gravando. A qualquer momento eu iria fazer um disco só com músicas do meu pai, com ou sem o lançamento da Stella'', disse Nana Caymmi, em entrevista à Folha2, por telefone.
Por ela, a obra de Caymmi poderia render muitos discos temáticos chegou até pensar num álbum só com canções que levam nome de pessoas (Marina, Dora, João Valentão, Rosa Morena, Adalgisa e daí vai). Poderia ficar só com os temas praieiros ou só com as canções consideradas urbanas, os sambas-canções de quando já havia deixado a Bahia e vindo para o Rio de Janeiro morar. ''À medida que eu ia fazendo o disco ia tendo surtos, tive crises... Estava diante de muita riqueza, então a cada hora eu queria morrer'', confessa.
E daí que ''O Mar e o Tempo'' acabou abrangendo as várias fases. Trata-se de um trabalho em família Dori ficou com os arranjos (juntamente com Cristóvão Bastos) e Danilo toca flauta aqui e ali. A grande sacada foi Nana quem deu, que foi reunir um coral só com vozes femininas da família de intérpretes (filhas, netas, sobrinhas). Os arranjos vocais, ficaram a cargo de Muri Costa, ''um deus'', segundo Nana. E o resultado é de arrepiar, principalmente em ''Peguei um Ita no Norte'', transformada numa toada em que Nana imaginou a solidão do pai ao dizer adeus à Bahia para tentar a vida em outro lugar.
''O Mar e o Tempo'' apoia-se no violão. Nada de arranjos suntuosos ou mirabolantes. Todas as faixas são revestidas de simplicidade, bem ao jeito de Caymmi. Um disco que traz, é fato, canções conhecidas já gravadas e regravadas por outras intérpretes Gal Costa, Jussara Silveira e Rosa Passos são as mais expressivas. Há certa melancolia rondando algumas faixas. Mas não se deixe enganar: as releituras de Nana Caymmi são, na verdade, ardentemente apaixonadas, dilacerantes tanto em canções alegres (''Festa de Rua'') ou saudosistas (''Coqueiro de Itapoã'').
Nana fez bom aproveitamento do material que tinha em mãos aliás, onde essa senhora cantora com mais de 40 anos de estrada coloca a voz... Depois dela, outros intérpretes deveriam pensar melhor e não comprometer a auto-estima caso decidam fazer um disco-tributo a Dorival Caymmi. A seguir os principais trechos da entrevista.
Por que só agora gravar um disco-tributo ao seu pai?
Porque eu estava cansada de trabalhar só com músicas inéditas, de procurar compositores e ficar nesse nhenhenhém. Aí eu disse: ''gente, eu estou com o saco cheio disso. Eu quero uma coisa que não dê trabalho''. Burrice minha, porque esse disco deu mais trabalho do que esperava.
Seu pai ouviu o disco?
Ouviu!
Ele gostou?
Ele gostou, achou bonito ainda mais porque a família estava quase toda lá.
Podemos dizer que o disco é uma espécie de biografia musical de Dorival?
Não, não... Seria uma ousadia eu dizer isso ao resumir a obra dele em 14 músicas...
Claro, mas você fez um apanhado geral e não ficou só nas canções praieiras, por exemplo.
Tanto o produtor como a gravadora se meteram. Por mim eu ficava só na primeira fase dele, as canções praieiras para depois trabalhar com as outras duas, que são os sambas-de-roda e o samba-canção, que é a fase mais madura e carioca dele. Seria uma trilogia. A trajetória seria até ele conhecer minha mãe.
Você conseguiu uma canção inédita. Quem revirou o baú, ele ou você?
Minha mãe cantava essa música e sei lá, passou batida do repertório. Quando eu e o Dori (Caymmi) fomos fazer o repertório final, lembramos da música. Fui à sala e perguntei se era dele. Perguntei: ''Mas ninguém gravou''? ''Não, ninguém gravou não'', respondeu ele. E eu: ''Papai, passou batida no songbook do Almir Chediak''. E ele ''Pois é...''
Aquele jeito bem Caymmi, né?
Eu tive uma sorte incrível que a música não entrou no sognbook.
Gal, Jussara Silveira, Rosa Passos já fizeram disco-tributos a Dorival. Pelo fato de ser filha dele, podemos dizer que esse disco ter um universo afetivo maior que os demais?
Claro, porque além de ser um grande compositor ele é meu pai.
Pergunto se você acredita ter dado uma versão definitiva...
(interrompendo) Não faço nada para ser definitivo. Acho isso de um mau gosto danado, porque sei que atrás de mim vem muito mais gente. Eu posso ser uma escola, mas não quero dar versão definitiva para nada.
Esse disco tem uma simplicidade sonora, ou melhor dizendo, uma sonoridade sem maiores firulas. Foi proposital?
Foi proposital. Eu proibi qualquer instrumento que não fosse cordas. Para que eu peça ao Cristovão Bastos (arranjador e pianista), meu companheiro de tantos, que não toque piano... Quando eu entro no estúdio eu sei o que eu quero.
É que seus discos costumam ter orquestra de cordas...
Nem todos. Na Odeon (gravadora) eu fiz discos muito simples, com quarteto, quinteto, sexteto. O José Milton adora essa grandiosidade, mas na hora de colocar no palco não dá para reproduzir o que foi feito em estúdio. Nesse disco foi uma guerra com ele. Disse que não queria arranjos pomposos senão eu não entraria no estúdio. Eu digo então que ficou um disco simples, clássico, uma coisa para toda a vida.
Você foi uma das primeiras a ler os originais da biografia que sua filha, Stella, fez de Dorival. Deve ter sido emocionante, não?
Não tenha dúvida porque sabia que ia mexer com a família toda.
Ao ponto de chorar?
Não cheguei a essa comoção porque a Stella me enchia muito o saco. Ela me perguntava muito. Eu dizia: ''não quero sair com você para ser interrogada, para dar entrevista''. É terrível sair com jornalista (rindo).
Obrigado pela parte que me toca!
(bem-humorada) Mas é verdade. Eu jamais teria como marido um jornalista porque vocês vêem notícia em tudo. Deu me livre!!
Mas a mídia ajudou a te projetar...
Eu sei, mas não estou discutindo isso. Hoje em dia a gente não tem fôlego mais. Acho que até os jornalistas estão cansados porque a notícia vem vindo muito rápida. Hoje em dia você não chega a um bar para contar uma novidade, porque um diz: ''Ah, eu peguei na Internet'' ou ''Ah, eu recebi um fax'' ou ''Ah, me contaram por telefone''. Acaba ficando enfadonho porque todo mundo já sabe
O mundo está muito acelarado para o seu gosto?
Ah está! Está acelerado até para o gosto do próprio mundo.
Vai haver lançamento do disco?
Em show ainda não porque mamãe está doente e eu não quero mexer nisso. Eu própria vinha com problemas.
Alguma coisa séria?
Não, não! É controle meu mesmo. É a menopausa que ataca, essas coisas todas. É a velhice, querido!
A velhice lhe assusta?
Não, mas a gente associa a velhice à morte. Meu pai está com boa saúde, minha mãe não. É muito complicada, na minha cabeça, a perda. Então não aceito fazer muitos trabalhos para ficar em volta da minha mãe. Ela vai fazer um cateterismo. (...) Então não estou com muita alegria para fazer o lançamento do disco. Vou esperar as eleições e conversar com a gravadora para ver como é que a gente faz em relação a isso.
Você acatou alguma sugestão na selação do repertório?
Eu detesto intromissão. Mas o José Milton me pediu e eu fiz muito contrariada ''Você Não Sabe Amar''. Aí, veio o Dori e eu muito p... da vida cedi e fiz ''E Eu Sem Maria'', que eu já havia gravado. Mas o v... queria fazer porque tinha um arranjo diferente (rindo).
Ah, mas você já havia gravado também ''Não Tem Solução''....
(debochada) Ah, querido, foi a gravadora que queria um sucesso como se tudo cantado ali não fosse sucesso de Dorival Caymmi. É que o sucesso de meu pai é uma coisa calma. A gente não quer estouro, aliás essa palavra não existe na minha casa. A idéia de sucesso para ele é a tranquilidade, é não ter ruído, é canto de passarinho...É ter o dinheiro normal da vida, andar com short ssurrado e trocar a camisa de vez em quando. Pronto: é isso que ele entende por fazer sucesso.


