NANÁ FAZ PERCUSSÃO ORGÂNICA
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quinta-feira, 24 de maio de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Desde que Naná Vasconcelos surgiu no cenário musical, o baticum brasileiro vem exercitando uma visão panorâmica. O leque de rumos aberto pelo músico tornou-o uma espécie de cartilha rítmica. Mas a música de Naná Vasconcelos não se limita à percussão. E sua percussão não se limita ao ritmo. É também melódica e orgânica, o corpo aparece como instrumento relevante.
O pernambucano Juvenal de Hollanda Vasconcelos extrapola características meramente auditivas, inserindo em sua obra ambientações cênicas. No show O Bater do Coração, que ele apresenta hoje no Cabaré do Filo, Naná Vasconcelos assume uma postura performática de contador de histórias.
Com um caráter investigativo, o músico mantém acesa a inquietação que o levou à composição experimental, chamando a atenção no exterior ao produzir, de forma acústica, sons até então feitos por sintetizadores. Essa criatividade se opõe à roda-viva comercial e não admite a caracterização da música como produto.
Não é à toa que o pernambucano participou de gravações históricas, tanto no Brasil quanto no exterior, atuando ao lado de nomes como Egberto Gismonti, Gilberto Gil, Charles Mingus, Miles Davis, Art Blakey, Ron Carter e outros. De Recife, por telefone, Naná Vasconcelos deu uma bem humorada entrevista à Folha2.
O que você pretende apresentar no Filo?
É uma performance que faço já há algum tempo. Estreei em Londres. Cada música é um cenário nosso, eu não falo, a música fala, é o senso de música visual. Meu trabalho é muito orgânico, uso meu corpo como instrumento. Percussão é símbolo de vida, se o coração não bate não há vida. A maneira que eu mexo com a percussão está ligada a um senso de orquestração. A minha música você não escuta no rádio, não tem compromisso com o comércio. E tem despertado o maior interesse por onde passo. Música e dignidade têm que estar juntos.
Como você vê a percussão na música brasileira atual?
A música instrumental está abrindo campo. Temos o Marcos Suzano e o Carlinhos Bronw, que está mais ligado à indústria, como toda a coisa da Bahia. As gravadoras estão interessadas em produzir produtos, não música. Produzi o Cordel do Fogo Encantado e falaram: mas não tem baixo, não tem teclado, está fora do padrão. A música se tornou descartável. Mas a música instrumental está fora disso. Eu, o Hermeto, o Egberto e o Suzano estamos fora. Nós procuramos fazer uma releitura da música brasileira.
Gostaria que você falasse um pouco dos aspectos visuais da música.
É simples, Villa-Lobos já fazia isso. O Trenzinho do Caipira leva a imaginar essa coisa. A iluminação pode ajudar um pouco. Não há exibição de virtuosismo. Quando eu falar: vamos para a selva, você vai se sentir lá. Eu procuro dizer alguma coisa, não explicar. O músico que procura explicar é aquele que enche o palco de instrumentos e tem que mostrar que toca tudo aquilo. Eu só uso a percussão para tirar música dela. Eu sou um músico, não necessariamente um percussionista.
E seu trabalho com Itamar Assumpção?
Acabei de fazer as bases da gravação. Foi uma experiência maravilhosa. O Itamar é um lunático imprevisível, são músicas inéditas. Eu compus pensando nele, na voz dele. Acabei também de fazer um balé para a França e dois filmes: A Tentação de São Sebastião e Nzinga Uma Rainha Africana, que vai ser rodado em Pernambuco, Salvador e Rio de Janeiro. Eu fiz a trilha sonora. Gosto de fazer workshops e trabalhar com crianças, gosto de estar perto das pessoas e expor minhas idéias. Os artistas estão tomando posições políticas e os políticos estão cada vez mais sendo artistas.
Você já tocou com Chico Freeman, que também está participando do Filo.
É maravilhoso tocar com Chico Freeman, ele vem de uma tradição de música improvisada, do free jazz. Ele não entrou no comercial, continuou dizendo aquela coisa do negro americano, de revolta. Não toquei com o Hilton Ruiz, mas ele viu alguns concertos meus com orquestras de cordas. Eu também presenciei alguns shows dele. São pessoas muito sensíveis à nossa música.
Você gravou com Miles Davis, que estaria completando 75 anos hoje. Como foi essa experiência?
Uma experiência com Miles é incrível, ele tinha idéias inovadoras, uma maneira de respeitar o silêncio e tocar simples. Ele tocava mais quando não tocava. Era uma grande escola, cada nota, cada batida tinha que fazer parte da música, não tinha nada excessivo. O segredo do suingue é a simplicidade. O jazz está sem saída por causa do Miles Davis. Todo mundo está fazendo releituras de New Orleans porque ninguém sabe para onde ir. É por causa dele.
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