Não deveriam causar espanto as recentes polêmicas criadas por V. S. Naipaul em relação aos muçulmanos da Indonésia e do Paquistão - ou as anteriores, quando ele falou da Índia de seus antepassados. Desde ''O Massagista Místico'' (57), o Nobel de Literatura se dedica a baixar o sarrafo nas mazelas políticas e no atraso cultural das antigas colônias européias.
Nesse seu primeiro romance, o alvo é a comunidade indiana que vive em seu país natal, Trinidad. País? Conforme Naipaul já vitupera na introdução: ''Embora os políticos tenham se acostumado a chamá-la de país, Trinidad não passa de uma pequena ilha, que em tamanho não supera Lancashire e em população é pouco menor que Nottingham''.
É lá, nos anos de 1940, que se desenrola a história de Ganesh Ramsumair - de professor hesitante a massagista fracassado, de místico de araque a político populista. Sem talento, o jovem brâmane tira proveito da ignorância da população, que se deixa ludibriar por ''massagistas pouco qualificados e dentistas charlatões''. Ele limita-se a acenar para as centenas de livros que leu, a dizer que o paciente não tem nada de errado e a receitar beberagens inócuas.
De massagista a místico é um pulo, embora os frutos só comecem a ser colhidos depois que ele exorciza um menino que acreditava ser perseguido por uma nuvem negra. A cena do esconjuro atinge tons pungentes e cômicos, com direito a cânticos frenéticos em hindi, explosões e desmaios.
Ganesh também sonha em ser escritor, numa época em que se confunde talento literário com obra impressa, livro publicado com triunfo social. De início rejeitado, seu almanaque ''101 Perguntas e Respostas sobre a Religião Hindu'', torna-se o primeiro best-seller da ilha depois que a história da cura se espalha.
A graça de ''O Massagista Místico'' tende a diminuir com a ascensão de Ganesh, na medida em que o narrador se distancia do personagem para descrever as intrigas políticas. Mesmo assim, há cenas hilariantes envolvendo a sua curta carreira de jornalista e o jantar que o governador oferece aos broncos legisladores de Trinidad.
Tais episódios, associados a tipos impagáveis, como a tia apelidada de Grande Arrotadora, o sogro ladino Ramlogan, a intrigante esposa Leela e o livreiro de pés descalços Bissoon, garantem o interesse e o poder de fogo dessa sátira caribenha.
Serviço: ''O Massagista Místico'', de V. S. Naipaul. Editora: Companhia das Letras. R$ 30,50 (224 págs.)

mockup