Nada se perde, tudo se transforma...
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de julho de 1998
Elisa Marilia Carneiro 
Transformar a madeira da velha canoa que não serve mais em poltronas, mesas e cadeiras. Este desafio foi aceito e executado com maestria pelo designer gaúcho Hugo França. Ele e outros 39 designers mostram seus trabalhos a partir de sexta-feira até o dia 10 de agosto no Palácio Iguaçu, em Curitiba, na mostra itinerante Brasil Faz Design, como parte da programação da 9ª ALADI Brasil 98 (ver matéria nestapágina).
Uma das peças do Projeto Canoas, onde o designer se utiliza da madeira que foi usada por pescadores há mais de 20 anos - a Cadeira Caju - participou além da mostra Brasil Faz Design em São Paulo no Museu da Casa Brasileira, da Feira de Milão.
Esta mesma cadeira e uma outra, com duas partes encaixadas (assento e encosto) irão para a Bienal de Saint Etienne, na França, em novembro. Dos 40 expositores do Brasil Faz Design, nove foram escolhidos para apresentar seus trabalhos na França, e dez receberam o prêmio top ten da mostra brasileira.
ReproduçãoModificações sem mudar a textura da madeiraHugo França tem formação em engenharia industrial, em Porto Alegre (RS). Desde 1983 vive entre o vilarejo de Trancoso na Bahia e seu ateliê em São Paulo. Compro as canoas que estão jogadas nos fundos dos quintais dos pescadores, levo para o ateliê onde limpo as partes podres, só depois estudo para que vai servir, conta.
Todo o processo de transformação é manual e a madeira é tratada com selador e cera natural. Para os acentos são usados tramas em couro cru. Os encaixes são feitos com pinos de madeira (tarugos) e cola. Em último caso, uso parafusos de latão. Mas procuro não interferir muito na textura da madeira. Para dar transparência e valorizar a textura trabalhada na água, no sal e na areia, Hugo utiliza o vidro.
As canoas antigas eram feitas a partir de um único tronco de Pequi (amarelo, verdadeiro ou preto), Juerana, Oiticica e Jaqueira. São madeiras encontradas na Mata Atlântica e que hoje são proibidas de ser cortadas.
O trabalho em Trancoso começou com a construção de sua própria casa, de pousadas e casas para veraneio e para pessoas que vivem no local. Depois começei a fabricar os móveis para essas casas a partir da madeira que sobrava das construções. Assim fui desenvolvendo o projeto, conta.
No começo, Hugo diz que os pescadores ficavam um tanto escandalizados. Depois que viam as peças prontas achavam bonito e começaram a entender o que ele fazia com todo aquele lixo. Hoje, quando chego em Trancoso já tem um monte de canoas me esperando. Os próprios pescadores vão atrás de material jogado fora ou deixado abandonado no meio da mata.


