Nada melhor do que não fazer nada...
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2001
Nelson Sato<BR>De Londrina 
Os cultores da labuta que desculpem, mas quem inventou o trabalho não tinha mais o que fazer. Afinal, não há nada como não fazer nada. Concordam?
''Estamos num mundo injusto. Não só todos insistem em trabalhar sem descanso como há desmancha-prazeres às dúzias, que vêm interferir no seu nobre repouso, interropendo o fluxo de reflexões geniais ou sonhos inspiradores com reles convites para que você levante da rede e vá lavar a louça ou responder seus e-mails''.
A queixa é da jornalista Gillian Borges, autora do ''Livro da Preguiça'', que acaba de chegar às prateleiras pela editora Mercuryo. O livro é uma coletânea de frases próprias e extraídas de fontes diversas, todas exaltando as propriedades terapêuticas do ócio. O poeta Mário Quintana, o escritor Oswald de Andrade, o sociólogo italiano Domenico de Masi, o antropólogo Roberto Da Matta, o cantor Gilberto Gil e o Conde de Mirabeau são alguns dos nomes que emprestam ditos espirituosos ao volume.
As frases são intercaladas com tiras de quadrinhos do cartunista Márcio Baraldi. As sentenças são dispostas em cinco blocos temáticos. No último deles, intitulado ''Grandes Feitos em Repouso'', Gillian lembra que o maior exemplo de criação nas horas vagas estaria na Bíblia: ''Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Entre a criação das feras e das aves, parou para bater papo com Adão e decidir o nome das coisas. Tudo a seu tempo, portanto''.
Ela mostra que a tradição da boa vadiagem remonta à Antiguidade Clássica, quando filósofos como Platão e Sócrates atravessavam os dias dormindo e as noites jogando conversa fora e bebericando vinho em banquetes com os amigos. Trabalho era tarefa ingrata, desprezível e relegada apenas aos escravos.
Não era diferente no Egito, onde a rainha Cleópatra dividia-se entre armar conchavos políticos, envenenar os inimigos e praticar o ócio passando até seis horas no banho, imersa no leite ou em água preparada com ervas aromáticas por suas vinte damas de companhia. Continuou assim na Idade Média e no Renascimento, quando o filósofo Thomas Morus acenou pela primeira vez com o sonho de reduzir o trabalho a apenas seis horas diárias em sua ''Utopia''.
''Até a Revolução Francesa'' conta a autora ''o trabalho era atividade de escravos, plebeus e prisioneiros de guerra. Os nobres preenchiam seu tempo com piqueniques, festas, bailes de máscaras, concertos, fofocas, casos amorosos e outras atividades sociais complexas e importantes para o andamento do mundo. Mas aí, em 1789, os trabalhadores franceses ficaram um pouco aborrecidos com a vida boa da nobreza e com o fato de que eram eles que tinham de sustentá-la. Com a ajuda de algumas guilhotinas, acabaram com a farra e com o pescoço, em muitos casos dos aristocratas dando fim à era do dolce far niente e conferindo ao trabalho uma grande superioridade. Desde então a preguiça nunca mais foi a mesma''.
A parcimônia de energia passou a ser mal vista e a labuta dos tempos modernos foi se tornando o padrão obrigatório. Com o surgimento das primeiras chaminés e estradas de ferro, na aurora da sociedade industrial, o trabalho conquistaria definitivamente o título de cidadania para, depois, ir sendo progressivamente tratado como um dos valores mais respeitados da atividade humana.
Mas nem todos aderiram à mística. Em 1880, o militante socialista Paul Lafargue escreveria um panfleto intitulado ''O Direito à Preguiça'' no qual denunciava a ''santificação'' do trabalho promovida por escritores, economistas e moralistas. Lafargue era genro de Karl Marx. Seu texto ganhou edições em várias línguas, chegando ao Brasil um século depois pela editora Kairós.
Há dois anos, foi reeditado pela Hucitec em parceria com a editora da Unesp. Em ''O Livro da Preguiça'', Gillian Borges retoma o tema. ''Depois de todos esses anos com suor no rosto, chegou a hora de recuperarmos a sabedoria milenar de nossos antepassados'' exorta ela. No Brasil, onde prolifera o mito da indolência tropical, o assunto dá pano pra manga. Quem nunca ouviu a história de que, aqui, o ano começa depois do carnaval ou mesmo da Semana Santa e termina umas duas semanas antes do Natal?
''O Livro da Preguiça''. Autora: Gillian Borges. Ilustrações: Marcio Baraldi. 88 páginas. R$ 15,80. Editora Mercuryo. Tel. (11) 5531-8222.


