Nada mais que um sub-Nietzsche
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de julho de 2002
Carlos Eduardo Lourenco Jorge<br> Especial para a Folha 2 
''Cálculo Mortal'', inspirado em célebre caso da crônica policial ocorrida nos Estados Unidos, em 1924, percorre caminhos exaustivamente transitados por dezenas de outros exemplares do gênero, desde o Hitchcock de ''Festim Diabólico'' até uma pequena jóia do cinema independente, ''Swoon'', assinada por Tom Kalin. No centro dos acontecimentos estão Richard (Ryan Gosling) e Justin (Michael Pitt), adolescentes de bom nível social e intelectual, leitores de Nietzsche, Rimbaud e Verlaine, que decidem cometer um assassinato com requintes de crueldade somente para demonstrar superioridade e sagacidade. Filhos de pais abastados, querem apenas o ócio cruel, espalhando pistas falsas. Estão plenamente convencidos que poderão sair impunes de qualquer investigação policial posterior.
Os detetives encarregados do caso, ocorrido na aprazível comunidade californiana de San Benito, são a problemática Cassie (Sandra Bullock) e seu pragmático parceiro Sam (Ben Chaplin), desde logo com uma atração extra-oficial delineada. A detetive é um espanto: pouco sociável, tem hábitos peculiares como ouvir música suave enquanto analisa fotos de um assassinato escabroso. Dos colegas recebeu o apelido de Hiena. Mora numa casa-barco. E é evidente que tem traumas afetivos, foi maltratada pelos homens da vida e vai lutar contra seus fantasmas em busca da redenção. Se preferirem: o personagem estudou com aplicação modelos consagrados como o detetive Mel Gibson dos diversos ''Arma Mortífera'' e a policial vivida por Jodie Foster em ''O Silêncio dos Inocentes''. O sarcasmo de um e a complexidade da outra não proporcionam um ''blend'' muito equilibrado a Bullock. Pelo contrário, é quase uma overdose. Já o engomadinho Chaplin passeia aquela mesma expressão séria de ''Além da Linha Vermelha''. Não é muito, mas ajuda.
O filme está fundado sobre o esquema padrão gato e rato, enquanto apela para referências bastante óbvias de comportamentos muitas vezes brilhantes de personagens psicopatas, da homossexualidade latente dos envolvidos. O roteiro, a partir de premissas nietzschianas sobre a sedução do poder envolvendo dois jovens estudantes mimados, que pretendem provar superioridade com o crime perfeito e impune, pretende uma reflexão sobre a natureza do Mal. Assim, por um lado cortejando a banalidade, por outro revestindo uma dose razoável de astúcia com uma transparente camada de verniz da marca ''cinema também deve ser cultura'', ''Cálculo Mortal'' é ilustrativo de um tipo de filme americano cada vez mais frequente, aquela espécie mediana a que se assiste sem sobressaltos ou grandes surpresas (boas ou más). Nada está muito bem, nada está muito mal. É, no rigor etimológico, algo medíocre aquilo que é mediano, sem relevo, comum e ordinário.
Estranho caso o do diretor Barbet Schroeder. Mostra que conhece o ofício, mas é muito pouco para quem assina projetos pessoais como ''O Reverso da Fortuna'' ou o recente e impactante ''A Virgem dos Assassinos'', filmado em vídeo nas ruas de Medellin.


