''Não consigo dizer se você é um filho da mãe realmente burro, ou um filho da mãe realmente esperto'', comenta em certo ponto do filme, indignado, o agente do FBI Wendell Everett (Don Cheadle). A observação é direcionada para o gordo, preguiçoso, mal-humorado e perspicaz policial Gerry Boyle (Brendan Gleeson), incomum protagonista da comédia irlandesa ''O Guarda'' - estreia de hoje na programação do Cine Com-Tour/UEL.
A trama começa com um assassinato misterioso, que abala a comunidade pacífica (e misógina) de uma pequena cidade na Irlanda. Investigando o caso, o policial Boyle e seu novo assistente, recém-chegado de Dublin (Rory Keenan) tentam solucionar o quebra-cabeças: na cena, está um vaso de flores e uma fração escrita com sangue (5 1/2). ''Talvez seja um serial killer'', diz o assistente. ''Talvez ele tenha matado 5 pessoas, e cortado as pernas da sexta vítima. Assim, cinco e meio'', continua. ''Isso é brilhante'', concorda Boyle.
O assassinato também coincide com a chegada de um agente do FBI na cidade, que investiga o tráfico internacional de meio bilhão de dólares em cocaína que, segundo informações da inteligência americana, vai ser descarregada em um dos portos da região. No meio da apresentação das fotos dos procurados (todos brancos e loiros) à policia local, o excêntrico Boyle levanta a mão e exclama. ''Alguma coisa está errada. Pensei que só negros fossem traficantes!'', causando comoção geral - acima de tudo, porque o agente Everett é negro. E ele cutuca ainda mais a ferida: ''Eu sou irlandês! Racismo é parte da minha cultura!'', defende-se, sem pedir desculpas.
Como esperado, o assassinato e o tráfico estão diretamente relacionados; os bandidos estão nas redondezas e, enquanto dirigem em um carro cheio de armas, discutem a validade filosófica dos escritos de Nietzsche e Bertrand Russel, além de terem um olhar crítico sobre a própria malvadeza. ''De quanto mais dinheiro precisamos? Não é o bastante?'', reflete, em certo ponto, um dos personagens mais cruéis do grupo. O filme não é só risadas. Uma espécie de profundidade, de ironia, também é parte essencial no humor amalucado da história. ''Ouça, tem algo grande acontecendo aqui, e não estou falando do meu pênis'', revela Boyle, em um dos seus momentos de sabedoria.
Com diálogos ácidos e politicamente incorretos, a atmosfera nonsense percorre todo o longa, e logo percebemos que a força do filme não reside em sua trama policial previsível, mas nos diálogos entre os seus personagens, que transbordam crítica social. Em seus melhores momentos, o longa suga diretamente na fonte das 'sketches' clássicas de Monty Python, com humor britânico da mais alta qualidade.
Dentro de um universo absurdo - de bandidos com crises existenciais; de policiais viciados em prostitutas; de velhinhas católicas desejando ter aproveitado mais drogas durante a vida - ''O Guarda'' é uma surpreendente comédia, que confunde o espectador nas suas intenções tanto quanto o caráter de seu protagonista. É uma comédia estúpida e, ao mesmo tempo, extremamente inteligente. Faz sentido? Provavelmente não.

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