Ao morrer, em abril de 1984, aos 92 anos, Céleste Albaret já não era a anônima governanta de Proust, mas a autora de um livro sobre o famoso patrão escritor, ''Senhor Proust'', que o cineasta alemão Percy Adlon (de ''Bagdad Café'') havia transformado três anos antes da morte da criada num filme de prestígio mas pouco visto, ''Céleste'', proustiano em sua meticulosa reconstituição do cotidiano do autor. ''Senhor Proust'' demorou meio século para ser publicado. Céleste resistiu ao assédio de editores até completar 82 anos, quando decidiu que estava na hora de fazer algumas revelações sobre o autor de ''Em Busca do Tempo Perdido'' e desmentir outras divulgadas por escritores que nem mesmo conheceram Proust. Pelo menos foi esse o argumento com o qual justificou a publicação de seu livro.
Céleste não viveu para ler a biografia publicada em 1999 pelo norte-americano Edmund White, ''Proust''. Nela, o também o biógrafo do dramaturgo e romancista Jean Genet defende que a homossexualidade conflituosa e a bipolaridade de Proust teriam marcado profundamente os sete volumes de sua obra monumental, a ponto de afirmar que muitos dos personagens femininos de ''Em Busca do Tempo Perdido'' são homens travestidos com nomes de mulher.
Céleste não ficaria propriamente surpresa com a revelação, mas, em seu livro, ela tenta disfarçar até mesmo a comprovada relação amorosa de Proust com seu secretário Alfred Agostinelli, antigo motorista de táxi transformado em Albertine, a libertina namorada do narrador de ''Em Busca do Tempo Perdido''. Proust presenteou-o com o aeroplano no qual o amante encontrou a morte. A governante sustenta, em seu livro, que ''construíram muitas fábulas'' a respeito do taxista, mas não deixa de provocar suspeitas levar um chofer para viver no número 102 do Boulevard Haussmann, que não recebia nem os amigos mais íntimos de Proust. Ao decidir romper com a vida mundana e escrever sua saga do tempo perdido, o asmático escritor isolou-se em seu quarto, fechado como um túmulo, e proibiu até mesmo que se usasse o fogão - a não ser para o café - para não macular suas narinas sensíveis a odores.
A governanta tenta polir a imagem do patrão, destacando sua generosidade e escondendo as excentricidades, mas fica difícil entender as razões para camuflar relações que se tornaram públicas. As cartas endereçadas ao compositor e ex-amante venezuelano Reynaldo Hahn - em que confessa ''amar, adorar Agostinelli'', ou sugerir que trocaria de sexo apenas para beijar o jovem Albert Nahmias - são provas irrefutáveis de sua homossexualidade. No entanto, Céleste insiste em transformá-la numa tendência improvável, fantasiando grandes paixões heterossexuais para seu recluso patrão, exato como uma mãe orgulhosa da virilidade do filho.
Não se deve esquecer que Céleste, apesar de ter datilografado originais de Proust, era uma camponesa, que o escritor a contratou em consideração ao amigo - e também chofer de táxi - Odilon, bastante parecido fisicamente com Agostineli. Seu livro de memórias, aliás, mais parece obra de edição do co-autor Georges Belmont, que se baseou em 70 horas de entrevistas gravadas para narrar, em estilo refinado, a história de Céleste. Ela conheceu o escritor em 1913, quando ''No Caminho de Swann'', o primeiro dos sete volumes de ''Em Busca do Tempo Perdido'', acabara de ser publicado. Serviu o patrão por nove anos e ganhou como recompensa uma entrada no último volume, ''O Tempo Redescoberto''.
Para quem conheceu tão bem Proust e seus hábitos, as revelações de Céleste não chegam a ajudar um leitor a encontrar veredas nesse sertão memorialístico. Cartesiana à exaustão, Céleste divide o mundo entre bons e maus. André Gide, que recusou os originais de ''No Caminho de Swann'' - ela jura que ele não leu -, é chamado pela governanta de ''falso monge''. Ela o odiava. Em contrapartida, deixa-se contagiar pela personalidade do conde Robert de Montesquiou, modelo do barão de Charlus, o personagem a quem Proust era mais afeiçoado, garante. Pudera. Charlus, apaixonado por homens de caráter suspeitíssimo, tinha tudo de Proust.

SERVIÇO
- Senhor Proust
Autora - Céleste Albaret
Tradução - Cordélia Magalhães
Editora - Novo Século
Páginas - 520
Quanto - R$ 59

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