NA TV - Nos passos de Dylan
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de janeiro de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Bob Dylan, o poeta maior do rock, sofreu o diabo quando decidiu abandonar o bucolismo folk dos discos iniciais para trazer a guitarra à frente das canções e dos palcos. A platéia reagiu taxando-o de traidor, comercial e judas. As circunstâncias dessa guinada musical podem ser apreciadas agora pelo público no documentário ''No Direction Home'', dirigido por Martin Scorcese e que estréia nesta segunda-feira na TV por assinatura.
O filme será exibido às 23h40 pelo Telecine Premiun. Com quase três horas e meia de duração, a obra reconstitui a trajetória do artista desde a infância no interior dos Estados Unidos, passando pela fase em que ele vagava com um violão e alguns versos inspirados no circuito boêmio do bairro nova-iorquino Greenwich Village até desembocar em sua consagração como ''porta-voz'' de uma geração e a posterior mudança de rumos musicais. O foco é o período que vai do 1961 a 1966.
Scorcese garimpou farto material inédito incluindo imagens do acervo pessoal do cantor, que surge no vídeo concedendo um longo depoimento, além de entrevistas durante uma turnê européia. O filme, aliás, começa e termina repercutindo a excursão de 1966 quando Dylan desapontou o público inglês ao se apresentar com uma banda de rock. Num show, debaixo de vaias, ele executa ruidosamente a música ''Like a Rolling Stone''.
Tal recepcão tem correspondência histórica no Brasil: foi com vaias que o público acolheu as guitarras nas canções tropicalistas de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Aqui a ditadura militar, as multinacionais, o imperialismo americano e o colonialismo cultural eram os inimigos a serem combatidos. Exigia-se uma tomada de posição. Nos Estados Unidos, haviam a guerra do Vietnã, a segregação racial e o assassinato de Kennedy.
Dylan acabou entronizado involuntariamente à condição de guru da esquerda. Todos queriam vê-lo zangado, ao violão, disparando palavras de ordem contra o sistema. Daí, a reação contrária às sua inquietações artísticas e a adesão ao rock. O documentário reúne depoimentos de várias pessoas que conviveram com o compositor, entre eles o poeta beat Allen Ginsberg e a cantora Joan Baez. Hoje, com 64 anos, o trovador experimenta um novo apogeu com o filme, a redescoberta de sua discografia e a biografia publicada no ano passado que permaneceu semanas na lista dos livros de não-ficção mais vendidos nos Estados Unidos.


