NA TV - Helena Meirelles sob o ângulo feminino
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de julho de 2006
Adriana Del Ré<br> Agência Estado 
A violeira Helena Meirelles podia ser chamada de uma personagem única. Pudera: era dona de uma história de vida e de um talento incomuns. Por isso, a sul-mato-grossense, que morreu no ano passado, aos 81 anos, era frequentemente convidada para entrevistas, especiais, documentários. O documentarista Francisco de Paula fez sua homenagem à instrumentista em ''Helena Meirelles - A Dama da Viola''. Em outro documentário ''Dona Helena'', que será reapresentado hoje no canal GNT, a diretora Dainara Toffoli revisita a trajetória da violeira, sob um ponto de vista puramente feminino (vide que a produção do filme é assinada por outra mulher, Mônica Schmiedt).
Registrado durante dois anos, de 2002 a 2004, o documentário traz os últimos depoimentos de Helena, que continuou na ativa se apresentando até o fim, mesmo já doente. Era o instinto de sobrevivência, sobretudo de sua música, que a acompanhava. Nascida em 1924, em pleno sertão do Mato Grosso do Sul, Helena Meirelles aprendeu a dedilhar a viola caipira sozinha, sem que os pais soubessem, já que naquele ambiente e naqueles tempos, uma mulher de bem tinha outras obrigações.
Mas ela não conseguiu passar imune à influência de peões e violeiros, com os quais convivia no dia-a-dia. Helena costumava dizer que fora criada igual a bicho selvagem, mas teve coragem suficiente para subverter as velhas normas. Casou-se três vezes, a primeira, por imposição dos pais, e teve 11 filhos. Quando jovem, saiu em comitivas de boiadeiros para tocar. Foi descoberta tardiamente, como tanto outros músicos de talento no Brasil. Foi a única brasileira a entrar no rol dos melhores instrumentistas do mundo, ao lado de nomes como Eric Clapton e B.B. King, graças à respeitada revista americana Guitar Player. Para contar essas e outras histórias, a diretora Dainara manteve Helena no ambiente onde poderia se sentir mais confortável e segura: em sua casa, em Presidente Epitácio, cidade paulista que faz fronteira com o Mato Grosso do Sul.
No documentário ''Dona Helena'', a violeira fala de seus causos com a dureza de quem passou por tudo um pouco na vida para sobreviver, chegou a ser parteira, lavadeira, prostituta. E mesmo com o título concebido pela Guitar Player, nunca conquistou o reconhecimento pleno. Essa dureza, Helena demonstrava, sem constrangimentos, sempre que era interpelada sobre sua trajetória. Mas também trazia um traço de doçura, característico de quem sempre fez o que quis e que não carrega qualquer amargura de uma vida sem sentido. A dela fez.


