NA TRILHA DOS INDEPENDENTES
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Há 20 anos Francisco Mário irmão de Betinho e Henfil lançava um disco independente. Hoje sua obra está sendo resgatada pelo filho, o pianista Marcos Souza
Foi na década de 70. Depois de tanto suar com o violão embaixo do braço, o compositor Francisco Mário finalmente recebeu um convite para lançar um disco. Mas os argumentos da gravadora levantaram a revolta do músico: os palpites se proliferaram, exigindo alterações na obra de acordo com os interesses do mercado.
Francisco Mário preferiu gravar por conta própria a diluir seu trabalho nos meandros da indústria fonográfica. Aos poucos, o músico se associou a Antonio Adolfo, Danilo Caymmi e ao grupo Sambachoro, dando origem à produção independente no Brasil. Em 1979, há 20 anos, Chico Mário lançava Terra, seu disco de estréia, do jeito que imaginara, sem qualquer concessão.
Irmão mais novo de Henfil e Betinho, não é de espantar que o compositor tenha descoberto a brecha para produzir e gravar sem a interferência dos desejos alheios. Os irmãos discutiam o País e traduziam suas preocupações em esforços que apontavam rumo alternativo ao trilhado. Os três eram hemofílicos e morreram de Aids, contraída durante as sessões de transfusão de sangue a que foram submetidos.
A técnica desenvolvida por Mário para gravar consistia em vender vários discos antes de produzi-los. Ele negociava exemplares para mais de 200 pessoas e, com o dinheiro, entrava no estúdio. Posteriormente, entregava a cada um o bolachão pronto. Na época, o disco era de vinil e o processo de registro muito caro, daí a importância de se provar a possibilidade de produzir às próprias custas, longe das grandes gravadoras. O caminho foi aberto na marra.
Violonista, Chico Mário compôs temas populares, choros, valsas e uma variedade grande de gêneros e estilos. Após sua morte, o pianista Marcos Souza filho do compositor resolveu se dedicar à divulgação da obra. No trabalho de resgate, Souza descobriu um material farto à espera de publicação. Como o pai, optou pelo caminho independente, relançando álbuns e cultuando a música de Chico Mário em diversos trabalhos.
Marcos Souza conseguiu lançar em CD discos como Suíte Brasil e Dança do Mar, realizados por Francisco Mário. Em julho, o rapaz conseguiu reunir vários músicos para lançar o álbum Marionetes, uma grande homenagem ao pai. Além disso, Marcos ainda lançou projetos próprios, como Vou Vivendo de Folia, com o grupo Conversa de Cordas, e Duo 2, com cavaquinho e piano. Mesmo nos trabalhos de Marcos Souza, a música de Mário está presente.
Não é para menos. Além de variada, a obra tem consistência. Suas melodias trazem forte carga emocional, que se aprofunda no vocabulário do violão e se multiplica em naipes de cordas. As composições buscam os nervos, não a superfície dos tons adocicados. E, como é da família, são fortemente arraigadas ao Brasil.
Como o Henfil e o Betinho, Francisco Mário era indignado. Hoje em dia ele ainda tem público, mas as pessoas não sabem que existem CDs. No meio musical ele é um pouco mais reconhecido, explica Marcos Souza, revelando que alguns grupos de choro e violeiros como Roberto Corrêa e Paulo Freire estão se interessando pelo compositor. Meu pai tinha muita coisa de regionalidade, e eu estou semeando as músicas dele.
Aprofundado nos estudos, Marcos de Souza acabou encontrando seu próprio caminho como autor. As composições começaram a surgir em 1990, e em 1994 ganharam espaço com a criação do grupo Conversa de Cordas. O segundo disco do grupo, Vou Vivendo de Folia, traz a faixa Chico Mário, de Souza e Marcello Lessa. O álbum tem a participação inusitada de Betinho ao violão.
Aliás, era comum Betinho cantar e tocar antes de se decidir pela sociologia. Um dia ele chegou para Marcos Souza e disse: Seu pai me roubou uma música. O fato teria ocorrido anos antes, quando o Betinho tentava arrancar uma melodia do violão. Chico Mário ouviu e desenvolveu a composição. Eu disse para o Betinho: Então vamos fazer uma música que lhe dou o crédito, lembra Souza. Os dois passaram uma madrugada inteira compondo. O resultado só ficou pronto às 5 da manhã, e ganhou o título Agora Vai.
Marcos Souza lembra que Henfil também era muito ligado à música: Um dos sonhos dele era ser dos Beatles. Ele insistia para o meu pai gravar um disco só com violão. Quando Henfil se recuperou de uma de suas crises de saúde, Chico Mário compôs Ressurreição, que gravou com oito violões. No enterro de Henfil, em 1988, predestinou ao encontrar Betinho: Henfil já foi, o próximo sou eu e depois será você.





