‘‘Eu sou um idiota racionalista francês. Isso tem uma coisa despoetizante horrível’’, disse o fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Verger ao cantor Gilberto Gil, em sua última entrevista, um dia antes de morrer, em 11 de fevereiro de 1996, aos 93 anos.
O canal por assinatura GNT, a Conspiração Filmes e a Gegê Produções Artísticas, no documentário sobre sua vida, do qual a entrevista faz parte, preferiram classificá-lo como ‘‘Mensageiro entre Dois Mundos’’, nome que deram ao programa, que tem roteiro de Marcos Bernstein, registrado em película e será apresentado pelo GNT em novembro, em dois episódios de 45 minutos cada. O nome ‘‘Mensageiro entre Dois Mundos’’ surgiu, segundo Lula Buarque de Hollanda, diretor do documentário, porque ao chegar a Salvador, em 46, depois de percorrer o mundo todo, Verger descobre que a cidade é ‘‘o melhor lugar do mundo para viver’’.
Pierre Édouard Léopold Verger nasceu em 1902, em Paris, como costumava dizer, por acaso. Detestava a burguesia européia, com a qual era obrigado a conviver. A morte de sua mãe, em 1932, foi a desculpa de que precisava para pegar sua máquina Rolleiflex e cumprir seu destino: viajar o tempo todo e de diversas maneiras.
Foi ao Taiti, à Polinésia, aos Estados Unidos, à China, mas foi no Brasil, em Salvador, ‘‘o melhor lugar do mundo’’, que ficou. Encanta-se pelo candomblé e, em 1948, ingressa na religião dos iorubas. É recebido no terreiro do Axé Opô Afonjá, onde Mãe Senhora proclamou-o Oju Obá: ‘‘os olhos de Xangô’’, ‘‘aquele que tudo enxerga e tudo sabe’’. É a partir daí que começa a viver sua sina de mensageiro, que os búzios de Mãe Senhora já haviam previsto. Entre 1949 e 1988 fez sucessivas viagens pela Bahia e pela costa ocidental da África, principalmente Benin e Nigéria, investigando a cultura ioruba e sua influência na cultura baiana. Depois de muito pesquisar e procurar, descobre em Benin a origem dos descendentes do terreiro do Axé Opô Afonjá. Lá, é iniciado no ifá, um jogo de adivinhação correspondente aos búzios no Brasil. Nasce então Fatumbi, nome que o acompanhará pelo resto da vida. Dessa experiência resultaram livros como ‘‘Dieux d’Afrique’’ (1954), ‘‘Notes sur le Culte des Orisha et Vodoum’’ (1957) e ‘‘Orixás’’, publicado no Brasil em 1981. Tudo isso será apresentado e narrado por Gilberto Gil no documentário ‘‘Mensageiro entre Dois Mundos’’. Ele percorreu os mesmos caminhos de Verger.
Em Salvador, Gil conversou com Mãe Stella, substituta de Mãe Senhora no terreiro Axé Opô Afonjá. Em Benin, conheceu o neto do babalaô que iniciou Verger. Lá, em nome dele, jogou ifá. Na África e no Brasil visitou lugares fotografados por ele. Pierre Verger foi fotógrafo, etnógrafo, virou escritor para registrar suas experiências entre os ‘‘dois mundos’’. Mas foi sobretudo ‘‘um adepto, um seguidor, um professor, no sentido de professar, da cultura ioruba’’, concluiu Gil.
No documentário, Gil pergunta a Verger como ele, um francês racional, se sentia parte do mundo ioruba. ‘‘Impressiona-me o que essa religião é capaz de fazer para descendentes africanos. Quando conheci Balbino (pai-de-santo do terreiro Axé Opô Aganju, em Salvador), ele nem sabia ler, mas era um sujeito contente de si, não se sentia humilhado com ninguém e falava de igual para igual com qualquer um, porque é filho de Xangô’’, disse Verger, também filho de Xangô.

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