Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
A recente entrega dos Globos de Ouro tinha sido um mau prenúncio. Aspirante a prêmios em diversas categorias, ‘‘O Talentoso Ripley’’, a partir de hoje em amplo circuito nacional (veja a programação de cinema nesta página), saiu da festa frustrado. Mas chegou no início da semana ao balcão de nominações com esperança renovada. Nova ducha de água fria. De mais importante, o filme só ficou com a indicação para a categoria de ator coadjuvante e roteiro adaptado. Concorre em outras três: direção de arte, figurino e trilha sonora. É pouco, quando se sabe que as maiores aspirações da dobradinha Paramount/Miramax caíram por terra: filme, direção e ator. A estrela do diretor-roteirista Anthony Minghella - nove estatuetas por ‘‘O Paciente Inglês’’ - desta vez não brilhou. Pelo menos para os membros da Academia, que devem ter considerado mais que satisfatório o desempenho do filme nas bilheterias americanas, algo como 75 milhões de dólares desde o lançamento, em 24 de dezembro. Em tese, portanto, o filme não precisaria de um empurrãozinho extra.
Baseado em novela cult da escritora texana Patricia Highsmith lançada em 1955, ‘‘The Talented Mr. Ripley’’ tem alguns pontos que podem situá-lo em contexto hitchcockiano, de saída seu principal trunfo. A começar pela própria fonte literária, geradora de uma outra novela - a primeira de uma série de 23 com a grife Highsmith - que o mestre levou à tela em 1951 sob o título de ‘‘Strangers on a Train’’ (Pacto Sinistro). E a ligação com Hitchcock parece crescer quando se examina mais detidamente o argumento.
Tom Ripley (Matt Damon) é um jovem pianista que trabalha como limpador de banheiro em Nova York, final dos 50. Tocando numa festa, ele conhece um milionário que tem um filho imprestável e esbanjador, no momento gastando a fortuna paterna na Itália. O homem o confunde com alguém que se formou em Princeton, como o filho. E contrata Tom para tentar convencer o rapaz, Dickie (Jude Law) a voltar para casa. Um suave sociopata, Tom vai à Europa e habilmente se faz cada vez mais presente e determinante na existência de Dickie e da namorada dele, Marge Sherwood (Gwyneth Paltrow). Tom é um perito na arte da dissimulação, mentiroso compulsivo e convincente imitador. Para obter o que parece ser o mais proveitoso para seu conceito de conforto material, tudo pode se tornar permissível. Assassinato, inclusive.
A trama, ainda que vista aqui de maneira compacta, soa como um possível Hitchcock, muito em razão de uma suspeita estratégia para envolver o espectador de forma insidiosa. É torcer para que o roteiro não tenha jogado fora matéria-prima nobre, honrando não somente a inspiração hitchcockiana mas também a primeira adaptação de ‘‘Ripley’’ para a tela, um thriller cerebral e sem alma bem à moda Highsmith, assinado na França em 59 por um inspirado René Clément.

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