Na trilha da tela grande
Nelson Sato
De Londrina
Pacote de trilhas sonoras traz desde mestres do gênero como Burth Bacharach e Michel Legrand a repertório infantil e canções com participação de integrantes do Sepultura
Música para cinema é música para multidões. Há pelo menos uma década, trilhas de filmes constituem o filão mais explorado da indústria fonográfica, superando ritmos da moda em termos de quantidade de lançamentos.
Numa inversão dos processos de produção, chegam mensalmente mais CDs de trilhas nas lojas do que fitas nas locadoras de vídeo, o que acaba tirando a primazia dos filmes na ordem de importância dos produtos. A atual temporada mantém o suprimento dos colecionadores em dia.
Os Anjinhos (RugRats), da Universal; No Coração dos Deuses (Roadrunner); EDtv, da Warner; Message in a Bottle, também da Warner; O Fino da Vigarice; Crown, o Magnífico; e Amigos e Aventureiros, estes três últimos da ST2 Records são alguns dos títulos recém-lançados no mercado.
A fornada é tão variada quanto irregular oferecendo desde clássicos do gênero assinados pelos mestres Burt Bacharach e Michel Legrand a composições infantis, canções-baba, soul music, folk rock e peças instrumentais ambiciosas.
O destaque disparado é o novo pacote da gravadora ST2 Records, através de sua série MGM De Luxe Soundtracks, que abrange scores de filmes do acervo da United Artists, companhia hoje pertencente à Metro-Goldwyn-Mayer. A trilha de Crown, o Magnífico, por exemplo, é considerada uma das mais belas peças já escritas para cinema.
Melancólica e com acento jazzístico, é quase irretocável em suas 18 faixas, das quais apenas duas são cantadas - uma delas, pela voz do próprio Michel Legrand, criador do álbum. A música-tema The Windmills Of Your Mind, por sua vez, é interpretada por Noel Harrison (filho do ator Rex Harrison), que com ela faturou o Oscar em 1968.
A trilha de After the Fox - O Fino da Vigarice é outra preciosidade desta safra de lançamentos, com o maestro Burt Bacharach exercitando a criatividade entre cançonetas tipicamente italianas e baladas de sua inconfundível lavra. A música-tema After the Fox é interpretada pela banda The Hollies, com participação debochado do ator Peter Sellers, que protagoniza o papel principal do filme.
Completando o pacote da ST2 Records, a trilha de Rancho Deluxe - Amigos e Aventureiros traz a marca registrada de seu criador Jimmy Buffet, cuja originalidade consistia em mesclar country music com o estilo honky tonk blues dos saloons do Mississipi. Como em todos os álbuns da série, este também inclui diálogos extraídos do filme, um encarte primoroso, além de uma faixa interativa para CD-ROM.
No âmbito do cinema nacional, a trilha de No Coração dos Deuses surpreende por um motivo curioso: a pouca idade de quem a concebeu, já que são raros os jovens revelados nesse gênero de trabalho. André Moraes tem apenas 21 anos. Ele é filho de Geraldo Moraes, autor e diretor do filme. Sua estréia como compositor de música para cinema, impressiona.
O filme narra a saga de um grupo de aventureiros que sai em busca de ouro a partir de um roteiro de viagem do século XVII. É protagonizado por Antônio Fagundes, e foi rodado durante 5 anos no Estado de Tocantins. A trilha sonora, quase toda instrumental, mescla batidas tribais e ambiência épica.
A atmosfera de grandiosidade, contudo, acaba por revelar uma certa repetição e monotonia de acordes nos arranjos para violões. A opção pelo tratamento acústico e a percussão orgânica remete às experiências da banda Sepultura, na fase anterior à separação dos irmãos Cavalera.
Não por acaso, o baterista Igor Cavalera e o guitarrista Andreas Kisser (ambos do Sepultura) estão presentes na maioria das faixas, servindo como chamariz para a molecada ouvir a trilha. Além deles, o CD traz participação do vocalista Mike Patton, ex-Faith No More, e de Márcio Mallard, violoncelista da Orquestra Sinfônica Brasileira.
André Moraes, por sua vez, não só assina todos os temas como toca em todas as faixas dividindo-se entre a guitarra, o violão, o baixo, os teclados e os tambores. A banda Infierno, da qual é líder, toca Martírios, uma das duas únicas faixas cantadas e uma das poucas destoantes do repertório.
A exemplo de No Coração de Deuses, as músicas de Os Anjinhos são coerentes com o longa, reunindo composições diretamente ligadas ao que o público vê na tela não faltando vozes dos personagens e a zoeira da criançada. A trilha reúne 12 faixas, sob o comando de Mark Mothersbaugh, líder da sumida banda new wave Devo.
, aliás, comparece aprontando fuleiragens vocais em Witch Doctor. A lista de participantes ilustres no disco é numerosa. Só uma das faixas, por exemplo, traz um coro formado por Patti Smith, Lenny Kravitz, Beck, Jakob Dylan, Laurie Anderson, Iggy Pop, Lisa Loeb, B-52s, Lou Raws, Dawn Robinson, B Real, Phife e Gordon Gano.
O material é eclético. Inclui rockinho new wave, hip hop, big beat, folk song e cançonetas infantis. Não fica atrás também, em matéria de diversidade de estilos musicais, a trilha de Edtv, filme que traz no papel principal o ator Matthew McConaughey. A diferença é que aqui pontifica o espírito de porco das coletâneas sem critérios, que enterra nove entre dez trilhas sonoras lançadas no mercado.
Há desde o insuportável Bon Jovi choramingando uma balada gosmenta na faixa de abertura à impagável performance de Otis Redding em These Arms of Mine. Otis está em boa companhia no CD representando o filé da soul music ao lado de nomes como James Brown, Al Green e Joe Tex. Deslocada, a banda pop inglesa Corneshop exaure o hit Sleep On The Left Side, carro-chefe do elogiado álbum When I was Born For The 7th Time, de 1998.
Completam o material gente famosa (Barry White, UB-40, Meredith Brooks etc) e outros nem tanto (Barenaked Ladies, Muzzie, Inmates etc), todos naufragando o CD numa sucessão de composições irrelevantes. Mais coerente seria comprimir esse elenco na ficha técnica da trilha de Message in a Bottle, a mais descartável do pacote.
Entupido de babas melequentas, este disco é capaz de provocar avarias nos CD-plays, tamanha a chatice baladeira. Com exceção de Carolina, interpretada por Sheryl Crow, nada se salva. Cantoras até respeitáveis como Laura Pausini e Sarah McLachlan saem daqui com a reputação maculada.





