Na trilha da imagem
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de agosto de 1998
Érika Pelegrino 
O pianista, compositor e regente italiano Giovanni Luisi, atualmente morando em Roma, tem um currículo significativo como colaborador na criação de trilhas sonoras para o cinema. Há 12 anos trabalhando na área, já colaborou com grandes compositores como Ennio Morricone em Cinema Paradiso.
Seu trabalho em trilhas sonoras começou na década de 80 quando foi um dos fundadores de uma cooperativa de artistas italianos, a Som e Imagem, que se destinava à pesquisa. Na época a trilha sonora já tinha uma história de mais de 50 anos.
Giovanni Luisi explica que no início as trilhas sonoras tinham um estilo clássico. Os americanos chamavam grandes compositores europeus para criar as trilhas sonoras para seus filmes. Nas décadas de 60 e 70 começa a surgir uma nova linguagem nesta área, que tinha como principal característica o não desenvolvimento musical. Esta característica se dá pelo imediatismo exigido na produção de um filme. A trilha sonora é criada e de imediato precisa ser gravada. Não é necessário desenvolver as idéias musicais, por não haver tempo, diz Luisi. Na época, era feita a troca de imagem e som com improvisação. A cooperativa estudou a relação entre improvisação musical e imagem. Naquela época o músico criava olhando a imagem. A música surgia sem ser pensada, afirma Giovanni Luisi. Hoje a linguagem é diferenciada, conclui. Os trabalhos da cooperativa foram apresentados em 1981 na Mostra Internacional de Cinema de Veneza.
Apesar de hoje não se trabalhar a trilha sonora com improvisação sabe-se que não há uma linguagem científica para desenvolvê-la. Trata-se de um trabalho muito mais intuitivo e de interpretação do compositor. O trabalho na cooperativa Som e Imagem acabou por tornar Luisi um assíduo colaborador de vários autores de trilhas de filmes. Além de Morricone, ele trabalhou com Carlos Lizzani e Marco Fereri.
Além de atuar com grandes mestres italianos das trilhas sonoras, Luisi é também autor de trilhas para filmes, documentários, desenhos animados e anúncios publicitários. É consultor da RAI (poderosa rede italiana de televisão) e responsável pela direção musical de edições italianas de documentários produzidos pela National Geographic Magazine.
Giovanni Luisi está em Londrina para reger a Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina, na série Concertos Matinais neste domingo (leia texto nesta página). A seguir, a entrevista que o compositor concedeu à Folha2.
Como é o trabalho do compositor na criação de uma trilha sonora?
Geralmente se estabelece um paradoxo, porque nem sempre é possível fazer música sobre um filme vendo a imagem. É um trabalho mais de conceito, de trocar idéias com o diretor. A tendência da trilha sonora é ser uma interpretação do compositor sobre o sentido geral do filme. Sem dúvida há algumas imagens que precisam de sincronismo, mas é um trabalho mais intuitivo.
Na relação entre som e imagem nem sempre é necessário existir um sincronismo?
Não existe uma lei específica para a criação de trilhas sonoras. A combinação de som e imagem é um aspecto artístico. O primeiro efeito desta tendência é que o sincronismo entre som e imagem é muito mais livre. Hoje, o público não fica surpreso se faltar sincronismo entre imagem e som. Uma música não precisa começar necessariamente quando começa a cena. A música pode começar, perfeitamente, 10 minutos depois, por exemplo.
O compositor trabalha em cima de que material para criar a música para
um filme?
O trabalho começa com uma sinopse do filme. Há alguns anos, o compositor trabalhava na ilha de montagem do filme com um cronômetro para fazer o sincronismo com a imagem. Hoje, o compositor recebe uma fita com o código de tempo e sincroniza o seu computador com a fita do filme, o que facilita muito o trabalho.
No processo de produção de um filme qual o tratamento que a trilha sonora recebe?
Geralmente a música é a última a ser feita na produção de um filme. Dinheiro e tempo para a trilha sonora são os últimos a ser considerados. Isto nas produções menores, não nos grandes filmes.
O compositor necessita de quanto tempo para criar uma trilha?
Uma trilha sonora com orquestra tem normalmente de 40 minutos a uma hora. Para compô-la, teoricamente, um bom músico precisa de um mês, mas o processo de produção é muito rápido e a trilha sonora tem que ser feita em duas ou três semanas. E sem tempo para ensaio, a gravação é imediata.
Como é a relação entre o compositor e o diretor do filme?
A direção do filme e compositor sempre se relacionam de maneira conflituosa. É normal o conflito, nunca trabalhei numa trilha sonora em que o conflito não acontecesse. O diretor tem sempre razão. Ele é o dono do filme.
Isto significa que no caso de filmes cinematográficos a música se submete à imagem?
Tecnicamente a música é escrava da imagem mas, se é boa, a música pode tocar sem a imagem. O exemplo disto é que em alguns casos são produzidos CDs de trilhas sonoras. As pessoas compram para ouvir apenas a música, sem a imagem. Nestes casos a música tem uma identidade própria. Não existe uma lei que rege a relação entre imagem e som. O experimento que será feito no concerto de hoje (ver texto nesta página) é o de tocar músicas de determinados filmes em cima de cenas de outros filmes.
Este tipo de experimento comprova que a relação entre imagem e som é livre?
Este experimento serve para saber se a música é boa - se dá para ser tocada sem imagem. E ao ser tocada com outras imagens, serve para saber se dá para entender uma possibilidade da música, de explicar um sentimento. Ao mesmo tempo em que som e imagem são duas artes distintas, existe uma relação muito estreita entre elas. Para mim, uma boa trilha sonora é aquela em que o músico pode exprimir a idéia de si mesmo.Dorico da SilvaGiovanni Luisi: A tendência da trilha sonora é ser uma interpretação do compositor sobre o sentido geral do filmeGiovanni Luisi, um expert em trilhas sonoras, fala do trabalho intuitivo de compor para o cinema e a TV


