'Cadê o frio? Eu trouxe um monte de agasalho!', diz o professor Nelson Vieira, 70, surpreso com os dias de sol na cidade. Americano de ascendência portuguesa, ele veio a convite da I Bienal do Livro de Curitiba, na condição de especialista na obra de Dalton Trevisan. Participou de um debate literário no último sábado e aproveita a reta final do evento, que vai até amanhã, para passear e fazer contatos.
Docente da Brown University, no estado de Rhode Island, Vieira leciona literatura luso-brasileira e judaico-brasileira. Ou seja: é o típico brasilianista apaixonado. Paixão que começou ainda nos anos 60, quando ganhou uma bolsa para estudar na Bahia. ''A sedução foi imediata. Quando vi, já estava corrompido'', brinca, quase sem sotaque.
O contato com a obra de Trevisan veio anos depois, quando uma colega (e futura esposa) lhe deu um exemplar do livro The Vampire of Curitiba and Other Stories - segundo ele, o único título do curitibano traduzido para o inglês. Não demorou muito e o professor estava envolvido com os textos daquele que considera ''o melhor contista da América Latina''. Ou, ainda, ''um autor no nível de Anton Tchecov, Edgar Allan Poe e Franz Kafka''.
Desde então, Vieira escreve artigos sobre o assunto e prepara um livro que reúne todo esse material, previsto para sair em dois anos. Para ele, Trevisan deveria ser mais conhecido mundo afora, pois sua literatura tem alcance universal. ''Ele parte de um ambiente provinciano, que conhece muito bem, para tratar de temas da condição humana. Dalton toca no subterrâneo do homem, o que é inquietante'', afirma.
Em termos de linguagem, o professor destaca a concisão do curitibano e, principalmente, sua habilidade de criar personagens altamente dramáticos, com vida própria. ''É como se o narrador não existisse e a gente acompanhasse as histórias pelo buraco da fechadura. Isso faz o leitor se identificar na hora'', explica o especialista, que ainda exalta o humor negro do autor. ''A figura do pai de família que vai ao bordel e se relaciona com uma prostituta sem tirar as meias pretas é triste e, ao mesmo tempo, irônica''.
Aliás, Vieira defende Trevisan de quem o critica por supostamente explorar personagens marginais e excluídos - enquanto poupa as classes mais abastadas. ''De certa forma, ele fala de toda a sociedade, pois essas pessoas humildes são vitimizadas por uma estrutura autoritária'', diz. E garante: do alto de seus 84 anos, o autor se atualiza a cada novo livro. ''Antes, os temas eram o submundo, o sexo, a morte. Hoje ele fala de drogas, do crack, da vila perigosa''.
E quanto à Curitiba, que o professor já havia visitado 25 anos atrás? ''É claro que dá para ver o boom socioeconômico da cidade. Mas, chegando no Centro, você percebe que muita coisa do passado está preservada. Por isso entendo porque o Dalton se concentrou aqui. É um ambiente muito singular'', conclui.

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