NA TELINHA ERA MELHOR
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de novembro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Chega hoje ao circuito brasileiro a versão para o cinema de um dos maiores sucessos da tevê mundial há duas décadas. Mas esta adaptação do seriado cult As Panteras fica em débito com o (tele) espectador que curtiu o trio original das Charlies Angels. A inversão da fórmula salta aos olhos: há 20 anos não havia tecnologia e de resto ninguém sentia falta mas sobravam belas mulheres caindo de charme e historinhas rápidas e bem construídas, temperadas com uma cândida polêmica envolvendo feminismo e sexismo. Agora há muito mais maneirismos e truques do que propriamente um argumento a seguir com interesse. Quanto às mulheres da versão 2000, há sérias controvérsias, ainda que bizantinas.
1976. Três anjos exterminadores de maus elementos capitaneados por um misterioso Charlie (somente a voz era ouvida, a do ator John Forsythe, de volta na versão-cinema) invadiam a telinha de todos os continentes. Instantaneamente, a loura posterizável Jill-Farraw Fawcett (na época ainda Majors, sobrenome do então marido, Lee Majors, o homem de seis milhões de dólares em outra série de vasto ibope), a morena cerebral Sabrina-Kate Jackson e a sexy Kelly-Jacklyn Smith se transformaram em estrelas mundiais. Três sedutoras mulheres-detetives a bordo de belos carros desafiando a escória das redondezas, praticando kung-fu e protagonizando correrias sem qualquer efeito especial. Um must que resistiu a diversas trocas de anjos e a várias temporadas porque se assumia por inteiro como iconografia da breguice.
Era evidente que o cinema, com sua notória atração muitas vezes fatal por matéria-prima kitsch, não ficaria indiferente ao apelo dos felinos adormecidos. Mas o processo de aproximação foi longo. E não livre de turbulências. Coube à atriz Drew Barrymore e sua produtora Flower Films dar partida ao projeto, em pouco tempo já em companhia da Sony. E a primeira decisão pode ter sido o início do desastre: embora logo de saída aprovada, ficou resolvido que o trio original não mais seria chamado para uma participação especial, afetiva. Drew decidiu reinventar a série, criando três novas panteras como se os personagens jamais tivessem existido na tevê. Elas agora são Nathalie, Alex e Dylan. Depois de intenso entra-e-sai, contrata-não-contrata, o elenco para refazer as três detetives se fixou na própria Drew Barrymore, em Cameron Diaz e em Lucy Liu. Ficaram de fora Catherine Zeta-Jones, Liv Tyler, Angelina Jolie, Lauryn Hill, Jordana Brewster e Tandie Newton, grávida depois das filmagens de Missão Impossível 2.
Mas apesar do esforço concentrado de 17 roteiristas (apenas 3 creditados), o bom andamento de As Panteras ficou entregue apenas aos apelos das moças em cena. A historieta, ridícula em concepção e execução, trata de um esterotipado bilionário do software que é raptado por um tipo que de quebra roubou alguns segredos de identificação vocal via informática. Qualquer colegial cinemeiro, de QI mediano, mata a charada em curtíssimo tempo, isto é, o filme celebra as bodas de Matrix com Missão Impossível 2, admitindo-se aí um triângulo com a participação de Austin Powers e até um quadrilátero com a insinuação de James Bond, qualquer um deles.
O filme é assinado por um tal McG (aliás, atende pelo nome de Joseph McGinty Nichol), estreante conhecido nas rodas de disco-dance e videoclipagem. Quando não há diálogos, o garoto preenche os vazios com muita música e troca de roupas. É exatamente por isso que As Panteras parece que nunca vai começar, com seu jeito de trailer esticado ou de um vídeo-rock. São planos rápidos, flashes, fragmentos de cenas. Pouco, quase nada.


