Na tela, um turbilhão
de sentimentos
Um poema em imagens, beirando uma hora e meia de duração. Sylvio Back que já passou pelos índios, alemães, pracinhas entre outros personagens, direcionou as lentes de sua câmera para o mundo sombrio e lírico do poeta simbolista Cruz e Sousa, nascido em Florianópolis, quando a cidade ainda se chamava Desterro, e trouxe desse passeio por suas páginas, luzes e sombras permeadas de emoção.
‘‘Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro’’ é um filme que se assemelha a um recital. Versos e prosa saem da boca do poeta – numa interpretação ímpar de Kadu Carneiro – de suas mulheres, seus amigos, enquanto a vida se desenrola com suas maravilhas e horrores, num non sense que só ela pode ter.
Assim como os amores viram a cabeça do poeta, e lhe enchem os dias de magnitude, tem o lado da dor, da raiva, a surda revolta com a condição de ser negro e espezinhado, quando o que ele queria era justamente ser reconhecido e valorizado. Nem uma coisa, nem outra recebeu em vida.
Essa foi a sua vida, e esse turbilhão de sentimentos impregna a tela com uma sinceridade comovente. ‘‘O Poeta do Desterro’’ flui como um poema declamado com sensibilidade. Para isso é de vital importância o desempenho dos atores – além de Kadu, tem ainda Maria Ceiça, Léa Garcia, Danielle Ornelas, vindos do Rio, Guilherme Weber, de Curitiba, e os catarinenses Jacqueline Valdivia, Luiz Cutolo, Carol Xavier, Marcelo Perna, Ricardo Bussy entre outros.
Sente-se no transcorrer do filme que há uma paixão, uma entrega sem reservas que se expande em cada cena. A fotografia de Antônio Luiz Mendes é primorosa, tem um tom dourado que remete à ilusão de que todo ele é feito à luz de lamparinas. Perfeitamente compatível ao Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX. As pesquisas de arte foram minuciosas, o mesmo acontece com a trilha sonora: as modinhas, valsas e tangos brasileiros são da época em que o poeta vivia. Sílvia Beraldo assina a direção musical.
Lírico como nunca – nem mesmo o curta sobre Helena Kolody atinge este nível – Sylvio Back criou uma vertigem que banha os amores de um poeta, mas também banha a sua revolta. Logo no começo do filme há uma sequência da Farra do Boi, enquanto em off é declamado um poema que aborda a vil existência dos escravos.
A imagem do animal em desespero se debatendo no telhado de uma casa, e servindo como diversão para uma multidão ensandecida, não exemplifica tão-somente o passado escravocrata. Essa mesma violência, alimentada pelo homem, se multiplica no dia-a-dia brasileiro, nas variantes da violência. Cruz e Sousa persiste em seus pesadelos, infelizmente, e a leitura da cor de sua pele se extravasa a outros tantos significados. O filme de Sylvio Back mostra isso: apesar do horror, o coração do homem ainda teima em sonhar e ser feliz. (Z.C.L.)

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