Na rota dos baleeiros
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de agosto de 1997
Jacques da Costa Carvalho Agência Estado 
ReproduçãoCais de Madalena do PicoUm vulcão plantado no mar ou uma ilha com vulcão? As duas coisas. O Pico, com 2.351 metros de altitude, é o ponto mais alto de Portugal. Seu cume, porém, quase sempre está encoberto, como ocorre nos locais mais altos dos Açores. Não raro, à beira-mar do arquipélago o céu está claro e azul. Quando se envereda por uma estradinha morro acima, a bruma vai baixando (ou a gente se aproximando dela) e tudo fica a cara de Londres. Um fog só.
Na Ilha do Pico, são mais de 200 cones vulcânicos. O maior deles, que dá nome à ilha, dorme em berço esplêndido. Separada da Ilha do Faial por uma vala de 4,5 milhas, há quem afirme que no fundo dessas águas há uma cratera de proporções gigantescas, com uma boca de quase 4 km. Nesse local, acredita-se, Atlântida sobrevive submersa.
Santa Maria Madalena é a vila principal da Ilha do Pico. Em seus arredores, não deixe de ver os Arcos do Cachorro. É uma impressionante aglomeração de lavas petrificadas junto ao mar, perfurada por inúmeras grutas e túneis. Repare, nas proximidades, as casas escuras feitas de pedras de lava, postas uma sobre as outras. Em contraste com o negro das paredes, cores vivas, intensas, dão vida a portas e janelas. De longe, parecem zebras concretas.
Igualmente negras são as cercas de pedra dos vinhedos. Nascidos de um solo de lava, protegidos dos ventos por rochas de basalto, aquecidos pelos raios de sol, os cachos de uvas ganham a doçura do mel. Espremidos, produzem um vinho branco seco que, depois de envelhecido, dá um aperitivo excelente. Além de abrigar parreiras, a Ilha do Pico produz pêssegos, maçãs, peras, damascos, laranjas e ameixas. É o pomar dos Açores. Mas são os figos, de interior vermelho como rubi, a fruta-símbolo dessa ilha cercada de um mar azul cristal, habitada por centenas de lendas e muitos mitos.
Monstrengos marinhos No Pico, há quem acredite que gente que morre no mar volta à noite para a vila, assustando meio mundo, em busca de morada. Para alimentar ainda mais o imaginário popular, as lulas que nadam por lá atingem quase nove metros de tamanho. Monstrengos marinhos que acabam, invariavelmente, no estômago de algum cachalote, aliás o seu predador natural.
E se o assunto é cachalote, Lajes do Pico é ponto de partida para outra aventura: whale watching. O Espaço Talassa, com o auxílio de embarcações modernas, promove o turismo de observação de baleias. Conhecida até 1987 como grande centro de caça e industrialização do cetáceo, Lajes do Pico, após o encerramento da pesca, virou uma página em sua história. Agora, o importante é manter vivo o bicho dentro da água. Em 96, de 501 saídas ao mar, em apenas uma vez o objetivo não foi atingido. Números do proprietário do Talassa, o francês Serge Viallelle, que já registrou, em suas pesquisas, 22 espécies.
Mas se a sua curiosidade sobre baleia permitir, não deixe de dar uma passada no Museu do Baleeiro. Além dos apetrechos utilizados na caça ao mamífero, o espaço mantém em seu acervo os equipamentos de industrialização do bicho. Tem desde as pás usadas para raspar a gordura do animal até a máquina de moer ossos, matéria-prima para a farinha. Além de um vídeo que mostra a caça e o retalhamento, o que mais impressiona no museu é o cheiro de sangue, ainda impregnado no lugar.


