Na rota de um modernista
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de fevereiro de 1998
Norma Couri Especial para Agência Estado 
ReproduçãoMário de Andrade: modernista verde-amarelo viajou pelo Brasil fazendo pesquisa culturalAs cinzas da última quarta-feira choram a morte de Mário de Andrade, há 53 anos, muito por culpa do desgosto pela demissão do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Tinha 51 anos. Para os amigos Manuel Bandeira e Pedro Nava, foi um cruel desgosto com efeito de assassinato. É para homenagear a última façanha de Mário no departamento que a TV Cultura exibe amanhã, às 23h30, uma clássica refilmagem do trabalho produzido há 60 anos pela maior locomotiva cultural brasileira da primeira metade deste século.
Ao refazer a rota do modernista pelo Nordeste, o diretor paulista Luís Adriano Daminello, 36 anos, produziu um documentário de hora e meia sobre a missão inacabada que Mário liderou de longe pelos confins do Nordeste brasileiro. A Missão de Pesquisas Folclóricas reconta as aventuras de Mário e sua equipe, recorta trechos dos seis rolos de filme, reproduz algumas das mais de mil fotos e 1,5 mil melodias gravadas no fim dos anos 30.
Os diálogos baseiam-se nas 7 mil páginas de anotações da equipe, nos diários de viagem do fotógrafo Luís Saia, nos registros do músico austríaco Martin Braunwieser, nas cartas do próprio Mário a amigos, como a chefe da Discoteca Municipal Oneyda de Alvarenga. Utilizando atores para identificar o próprio Mário (Pascoal da Conceição, que nasceu no mesmo dia e mês do escritor), Oswald de Andrade (José Rubens Chachá, do grupo Ornitorrinco), Tarsila do Amaral (Natália Barros) e o restante da equipe, o documentário é obrigatório para caçadores de arcas perdidas - mesmo na ressaca do carnaval.
Em fevereiro de 1938, quatro técnicos partiram de barco de São Paulo rumo ao Norte e ao Nordeste do País e percorreram a região durante seis meses de caminhão e de trem. Levavam uma tonelada de equipamentos - discos de acetato, o aparelho de som de última geração Presto Recorder, a filmadora Kodak e uma Rollei-Flex. Anotaram ritmos, perpetuaram sons, captaram imagens e anotaram muito.
ReproduçãoMário de Andrade na linha férrea de Porto Velho (1927)
Eles documentaram preciosidades como o Canto dos Carregadores de Piano, utilizado para que os carregadores, com o instrumento nos ombros, mantivessem o mesmo ritmo ao andar do cais às casas. Registraram índios pancararus entre Recife e Tacarutu, os índios da Baía da Traição, de quem aprenderam o toré e o coco, coletaram peças de bumba-meu-boi, congo, vaquejadas e cantigas típicas de carregadores de pedras ou de pedintes. Além disso, gravaram danças como a nau catarineta, que conta a aventura dos navegadores, e os caboclinhos.
A equipe que saiu de São Paulo 60 anos depois viajou de avião, Toyota com ar condicionado e ônibus. Usou telefone celular, filmou em 16 milímetros na máquina Éclair, usou equipamento de som Dat e encontrou coisas que Mário de Andrade nem sonhava - como a lambada e a dança da garrafa, índio dançando com ventilador em lugar do cocar e tribos que se recusaram a dançar se não recebesse em dinheiro, porque desconfiam de cheque dos brancos. E movimentos de sem-terra. Foram obrigados a reproduzir em poucos quilômetros, em Atibaiana, o percurso de trem da equipe original, filmando na única e mais antiga maria-fumaça em operação na América do Sul -obra de um excêntrico.
Assim mesmo, em 83 dias, o diretor Daminello, o produtor-executivo Jorge Palmari e a roteirista Simone Azevedo encontraram coisas com as quais não sonhavam. Fiquei pasmo, como o Mário descobriu o verdadeiro Brasil, diz Daminello. Eles também cruzaram com os índios pancararus da aldeia Brejo dos Padres - bem mais dizimados -, captaram na Paraíba os congos, pontões e aboiadores, registraram em Belém do Pará os círios de Nazaré, se maravilharam em São Luís do Maranhão com o tambor de crioula e o boi-bumbá e filmaram em Cariri, ao sul do Ceará, os reisados e o maneiro-pau. O documentário registra ainda cambindas e cicos de praia, grupos de caboclinhos e blocos de índios, a mazurca, os fandangos, os contadores de histórias.
ReproduçãoMário de Andrade (no centro) e o grupo modernista (1922)
Também, o malicioso pastoril profano, agora comandado por Mestre Dengoso, sobre o qual a equipe de Mário evitou deter-se. Mas constataram que os grupos folclóricos desapareceram na cidade onde eram mais fecundos, Souza, na Paraíba. Agora eles só se preocupam com as pegadas de dinossauros encontradas e já levadas pelos americanos, diz a nova equipe.
A pinga continua, como na época de Mário, a fazer parte dos contratos dos cantadores. O documentário mostra essas coincidências e também os tambores e materiais de culto africano apreendidos pela polícia na época em que a equipe de Mário passou pelo Nordeste.
Infelizmente, Mário, que deveria unir-se ao grupo, jamais chegou lá. Com a rebelião no Palácio da Guanabara, onde Getúlio Vargas sofreu um atentado, o prefeito de São Paulo, Fábio Prado, foi substituído por Prestes Maia, que mandou a expedição voltar. Mais uma vez foi salva por Mário. Ele telegrafa secretamente e manda a expedição partir imediatamente para o Maranhão para não ser apanhada pela nova direção, dificultando a volta.
Mário tinha estado antes no Amazonas (1927) e no Nordeste (1928-1929) para pesquisas folclóricas e ainda numa primeira vez em Minas (1924) com Tarsila e Oswald. Essa segunda ida ao Rio Amazonas, onde ele terminou a redação de Macunaíma, foi descrita em O Turista Aprendiz e é sobre esse material que Daminello se debruça no momento.
Depois de concluir seu primeiro longa sobre a missão, Daminello parte para esse projeto de US$ 2,5 milhões e acha que vale a pena. Mário pipoca na cabeça de Daminello há seis anos. A idéia do filme ganhou corpo ao embarcar na tese do musicólogo responsável pela conservação do acervo da Discoteca Oneyda de Alvarenga, no Centro Cultural São Paulo, Álvaro Carlini. Mas só foi possível por causa de um prêmio.
Foi o Prêmio Estímulo do governo paulista, de US$ 16 mil, conta. Mas o filme só terminou, ao custo de US$ 130 mil, por causa de patrocínio e de doações com a de José Mindlin. De vídeo de 30 minutos, a Missão virou um longa de 90. Mas, em se tratando de Mário de Andrade, já deu para perceber que é só o começo, conclui o diretor.


