‘‘A rapaziada quer hip hop ou não quer?’’. O chamado do DJ instiga os que estão do lado de dentro das grades. ‘‘Com certeza, mano!’’, é a resposta. Ao som da batida do rap, adolescentes deixam as celas e entram no pátio do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (CIAADI), onde integrantes do Movimento Hip Hop de Londrina (MH2L) os aguardam para iniciar oficinas de break, grafite e rap com os b.boys Sergin e Japonês, o grafiteiro Fred e o DJ Jesus.
A iniciativa partiu do grupo coordenado pelo DJ KSK, que acredita ser o hip hop uma manifestação com a qual os garotos do CIAADI se identificam, já que a maioria deles vem da periferia. ‘‘O hip hop é uma alternativa para que os moleques não voltem para a vida do crime. Eles podem procurar a gente fora daqui. O movimento já vem fazendo um trabalho com menores de rua em parceria com a Secretaria Municipal da Ação Social’’, avisa.
Encostados na parede, em fila, os garotos mantêm as mãos para trás e aguardam o início das atividades. Do outro lado, a única menina do centro observa. Um dos garotos se aproxima dos manos para cumprimentá-los. O b.boy Sergin vai até a fila e faz o mesmo cumprimento, um a um. DJ KSK dá seu recado ao microfone: ‘‘Tá na hora de vocês mostrarem para a sociedade que não é por estarem atrás das grades que depois não podem viver bem lá fora! A gente quer paz!’’, agita. ‘‘Temos um exemplo aqui, o mano Sergin, que já passou pelo CIAADI algumas vezes e hoje é um dos b.boys mais respeitados de Londrina!’’.
Aos 20 anos, o b.boy Sergin lembra que na adolescência passou pelo CIAADI três vezes, por assalto à mão armada. ‘‘Roubava para comprar droga e dar uma assistência em casa’’. Conversas com amigos, psicólogos e muita oração, segundo afirma, foram a maneira que ele encontrou para deixar as drogas e os assaltos. ‘‘O hip hop sempre esteve presente na minha vida, mas eu nunca tive a oportunidade que esses meninos estão tendo. Saí das drogas por vontade própria’’, avisa.
Em 1999, ele entrou para o grupo de rap Irmãos do Gueto e iniciou um trabalho voluntário no Caic Zona Sul e com menores do Jardim União da Vitória. A vida do rapaz ainda é difícil. Sem emprego, sobrevive de bicos. ‘‘Não participo do hip hop por dinheiro. Continuo procurando um trampo. Dá para levar os dois numa boa’’, afirma. Para Sergin, a experiência do MH2L pode apontar caminhos para os garotos. A virada depende de cada um deles.
Ainda em silêncio, os garotos olham a performance do b.boy na pista. ‘‘Conheço os mano a풒, diz E.P.O, de 14 anos, internado pela segunda vez por roubo. Você gosta de break? ‘‘Na rua eu fazia umas coisas assim, dava umas cambalhotas’’, conta. Enquanto isso, DJ KSK tenta enturmar a molecada. ‘‘Tô sabendo que aqui tem uns b.boys. Podem entrar, não precisa vergonha. Esqueçam que vocês estão atrás desse muro’’. Aos poucos, os garotos começam a se soltar, alguns descruzam os braços, outros aplaudem.
P.G.O., 17 anos, observa de longe, curtindo o som do rap. A reportagem pergunta o que ele acha da iniciativa do movimento hip hop: ‘‘Isso ajuda para quem entra no movimento’’, diz. E você, não tem vontade de participar? ‘‘Vontade eu tenho, mas não tenho condições físicas’’, brinca. O menor está no 12º dia de seu primeiro internamento provisório. Tráfico de drogas. P.G.O. foi encaminhado ao CIAADI junto com o irmão, W.G.R., de 16 anos, depois de um flagrante da polícia na casa onde moram. Em seu terceiro internamento provisório, W.G.R. será encaminhado para o Educandário São Francisco, em Curitiba, onde deve passar de seis meses a três anos internado. ‘‘Essa atividade aí é legal, mas lá fora é difícil’’.
A menina S., de 14 anos, prefere ficar na dela. Só observando. Não gosta? ‘‘Ah, eu curto, mas prefiro olhar’’, diz, ainda tímida. ‘‘De repente isso pode ser uma saída. Depende da cabeça de cada um. O outro lá (Sergin) já não passou por aqui?’’, pergunta. Ela está internada há 32 dias por roubo.
O trabalho do hip hop não é fácil, assim como a vida dos adolescentes internados. D.S.S., 15 anos, observa o muro, onde o grafiteiro faz desenhos. ‘‘Curto mais isso a풒, fala, de braços cruzados. ‘‘Meu pai e meu irmão são pintores’’. Pela terceira vez internado, D.S.S. foi encaminhado ao CIAADI por assalto à mão armada. ‘‘Esse lance pelo menos coloca coisa boa na cabeça da gente. Lá fora, é só dinheiro. Vinte e quatro horas pensando em dinheiro’’, salienta. ‘‘Eu era boy de uma barraca. Fui despedido. Se tivesse trabalhando não estaria roubando’’.
Atualmente, 26 meninos e uma menina (entre 12 e 18 anos) estão internados provisoriamente no centro. A direção do CIAADI aprovou a idéia do Movimento Hip Hop por vislumbrar uma possibilidade de trabalho alternativo com os menores. ‘‘A intenção é fazer com que o adolescente tenha um espaço para elaborar o rap da vida deles, o que é uma forma até de estarmos estudando questões de encaminhamento para os casos’’, comenta o diretor Márcio Filla.
Para ele, as atividades facilitam descobrir o que os menores querem e isso é uma forma de analisar cada caso. ‘‘Ao invés de rabiscar a parede com mensagens negativas, eles podem fazer coisas positivas em forma de arte, abordando paz, liberdade, não-violência’’. Os garotos agora vão lavar as celas para iniciar as pinturas e o grafite na semana que vem.

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