Na reta final, Festival de Curitiba destaca a acessibilidade
Ao longo de duas semanas, evento destacou também a inclusão, Mostra Surda consolida-se nesta vertente
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de abril de 2025
Ao longo de duas semanas, evento destacou também a inclusão, Mostra Surda consolida-se nesta vertente
Janaína Ávila/ Especial para a FOLHA 

Um festival de teatro, com uma grade de programação para todos os públicos, gostos e bolsos, que abraça a diversidade de uma sociedade em constante evolução.
O palco para todos os tipos de corpos, celebrando a arte do ser ator a representar os mais variados papéis, distantes da realidade ou perto demais para ser apenas ficção. O amor, o ódio, o riso, a rixa, o choro, as risadas nos velhos e nas crianças, a vida e a morte.
A capital paranaense celebra o teatro multimeios até domingo (6) com a 33ª edição do Festival de Curitiba, que tem tudo para fechar as cortinas como um dos eventos mais importantes das artes cênicas no País e na América Latina, com um impacto cultural, turístico e econômico por nada, indiferente.
Ao longo de duas intensas semanas, 1,8 mil artistas, técnicos e profissionais da cultura participam diretamente da edição 2025, sendo aproximadamente 600 deles de fora da capital, subsidiados pela organização do evento. Soma-se a isso, os 857 crachás para as trupes que participam do Circuito Independente e estão na Capital por conta própria ou por meio das empresas ou companhias a que pertencem. É todo mundo se hospedando, frequentando restaurantes, o comércio e contribuindo ativamente para a movimentação da economia local.
Os números do Festival atordoam: estimativas da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar), do Sindicato das Empresas Promotoras de Eventos (SINDIPROM-PR) e da Federação das Empresas de Hospedagem, Gastronomia, Entretenimento, Lazer e Similares (Feturismo) apontam que, para 2025, a movimentação financeira gerada pelo evento chegue a R$ 50 milhões.
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No último sábado, a conta dos espectadores nas salas dos espetáculos da Mostra Lúcia Camargo, a principal e mais concorrida, passava dos 60 mil. A expectativa da organização é atrair 200 mil pessoas nas plateias das mais de 350 atrações da programação em 70 espaços distribuídos entre Curitiba e região metropolitana.

FRINGE
Só no Fringe, o evento inspirado no Festival escocês de Edimburgo, são 280 espetáculos, de onze estados brasileiros e com a participação pesada de elencos paranaenses com Mostras dedicadas inclusive, como a “Iminente”, dedicada à Maringá, com oficinas, teatro e dança; e “Solos para (re)Existir”, onde o protagonismo é londrinense em monólogos, bate-papos e teatro de formas animadas. Mario Bortolotto também ganha uma mostra dedicada e nada nos impede de colocar o ator, diretor e compositor na conta londrinense. O Fringe ocupa teatros, praças, parques e ruas, e também recebe produções de outros quatro países (EUA, Peru, Bolívia e Argentina), além de oficinas de aprendizagem e desenvolvimento profissional.
DIVERSIDADE E ACESSIBILIDADE
A curadoria da Mostra Lúcia Camargo, a cargo da produtora e pesquisadora Daniele Sampaio, da atriz e diretora Giovana Soar e do dramaturgo e crítico teatral Patrick Pessoa, aponta tendências na produção teatral contemporânea, focada na multiplicidade de expressões artísticas e na acessibilidade da programação. O tema da velhice, memórias, solidão e etarismo aparece em bem quatro espetáculos, com intersecções bastante interessantes como em “Homens Pink” (SC) que trata da comunidade LGBTI+ brasileira a partir das experiências de um grupo de homens com mais de 65 anos. O envelhecimento das pessoas negras é tema do espetáculo “Bom Dia, Eternidade”, do coletivo O Bonde (SP) em cena. A comida cozinhada em cena, música, arte negra e indígena também são celebradas em “O Fim é Uma Outra Coisa”, espetáculo performático comandado pela artista e pesquisadora culinária Zora Santos (SP).
MEMÓRIAS
Grande expectativa para a montagem do argentino Marco Canale, “A Velocidade da Luz”, com atores locais e criada a partir das memórias de pessoas idosas que vivem em Curitiba. O diretor repete o processo criativo que já aconteceu em festivais na Argentina, Alemanha, Japão, Suíça, Espanha, Chile e aqui no Brasil no Mirada, no ano passado. A estreia está marcada para sábado (5) na Praça Santos Andrade, às 16h, gratuito.
As conexões vão acontecendo ao longo do Festival. Histórias curiosas de participantes, como aquela do diretor curitibano Marcio Abreu, da Companhia Brasileira de Teatro, que em 1996 era o “anjo” responsável por receber a atriz Renata Sorrah, naquela edição com Mary Stuart. Quase 30 anos depois, Abreu a dirige em “Ao Vivo (Dentro da Cabeça de Alguém)”, que foi o primeiro espetáculo a ter os ingressos esgotados esse ano. A peça faz uma referência ao clássico ‘A Gaivota’, do russo Anton Tchékhov, que também serve de inspiração para pelo menos outros quatro espetáculos do Festival em 2025, entre eles, o drama “Júpiter e a Gaivota – É Impossível Viver Sem o Teatro”, da Companhia Setor de Áreas Isoladas (DF), a partir de uma leitura feminista, contemporânea e brasileira.

Um Rei Lear inédito também foi uma das grandes atrações do Festival, a primeira montagem no mundo com elenco todo formado por drag queens e com o protagonista, o ator Alexia Twister, vencedor do Prêmio Shell esse ano. Duas montagens promoveram o encontro de dois grandes expoentes da cultura paranaense que dizem, não se bicavam: Paulo Leminski, em “Cabaré Haikai” e “Daqui Ninguém Sai”, com o Teatro de Comédia do Paraná, com a obra de Dalton Trevisan.
TRILHAS AO VIVO
Diversos espetáculos trouxeram trilhas executadas ao vivo, com músicos dividindo o palco com atores. Aconteceu em “Ray – Você Não me Conhece”, montagem paulistana que conta a trajetória de Ray Charles e a conturbada relação familiar, tendo como pano de fundo a genialidade e fraquezas do artista. Essa é a ficha técnica mais longa do Festival, uma superprodução onde o texto privilegia os deficientes visuais, também presente nas duas sessões que lotaram o Guairão, com a frase “para que todos possam ver”. Uma audiodescrição em cena, além da interpretação em Libras no canto do palco, aquela que quem pode já está acostumada a assistir. A escolha tem tudo a ver com a própria condição de Ray Charles, cego aos sete anos de idade.

Outra montagem, “Língua”, do Rio de Janeiro, levou para o palco um espetáculo bilíngue, em português e Libras, com uma mãe que prepara a festa de aniversário do filho surdo e, a partir disso, surgem os impasses de comunicação universais. Espetáculos na Mostra principal que dialogam profundamente com a segunda edição da Mostra Surda, talvez a ação mais surpreendente do Festival, com sete espetáculos que exploram diferentes linguagens cênicas, abordando temas como identidade, resistência, cultura surda e interseccionalidade.
Estima-se que Curitiba tenha uma população de 98 mil pessoas surdas e a Mostra, totalmente gratuita, ofereceu apenas dois mil ingressos, o que indica aos organizadores o potencial para os próximos anos. Alguns espetáculos também foram transmitidos online, na Plataforma Fringe.

Antagonista da alegria explosiva do Risorama, pelo menos dois espetáculos devem causar estranhamento e até medo na plateia. Na primeira semana, “Monga” com a cearense Jéssica Teixeira, montagem dentro do gênero do terror psicológico, onde a artista se propõe a revisitar a crueza do passado sem sensacionalismos, derrubando mitos, para construir outros imaginários possíveis a partir da história de Julia Pastrana, uma mexicana que foi conhecida vulgarmente como mulher-macaco e se tornou uma das grandes inspirações para os freak shows.
A Vigor Mortis, dirigida por Paulo Biscaia Filho e uma das principais companhias de teatro da capital paranaense, comemora, por assim dizer, 27 anos com um espetáculo diferente e aterrorizante. “A Maldição dos 27 Anos – um guia de sobrevivência da "Vigor Mortis” vai em cena no prédio que abrigava o antigo Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba, hoje o Museu Paranaense de Ciências Forenses, para criar uma experiência imersiva que combina terror, suspense e elementos sobrenaturais para uma corajosa plateia de apenas 25 pessoas por sessão, por ordem de chegada.

A montagem traz todos os elementos essenciais de um clássico do horror com muito sangue, vampiros, zumbis, medo e suspense. Descrito como um verdadeiro "túnel do terror", o espetáculo conduz o público a conhecer diferentes salas do necrotério, fazendo referências a momentos marcantes da trajetória da companhia que já esteve em Londrina, no FILO, com outros dois espetáculos do repertório: “Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos”, que também se passava em um necrotério, em 2005, e “Graphic”, na edição de 2007. Ao longo de sua trajetória, a companhia já explorou diferentes vertentes do horror, desde o tradicional até o cômico, passando por peças de rua e produções voltadas para toda a família. Essa é a primeira vez que o grupo aposta no formato de “casa do horror”, típico de parques de diversão norte-americanos.
A Mostra Lucia Camargo e a Mostra Fringe são apresentadas por Petrobras, Sanepar, CAIXA e Prefeitura de Curitiba, com patrocínio de CNH Capital – New Holland, EBANX, ClearCorrect – Neodent, SEBRAE, Viaje Paraná – Governo do Estado do Paraná e Copel – Pura Energia, além do patrocínio especial da Universidade Positivo.
* A jornalista viajou a convite da organização do evento.
SERVIÇO:
33º Festival de Curitiba
Data: até domingo (6)
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller (Segunda a sábado, das 10h às 22h e, domingos e feriados, das 14h às 20h).
Verifique a classificação indicativa e orientações de cada espetáculo.


