Na ponta da língua
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de fevereiro de 2009
Gabriela Germano<br> TV Press 
Nada melhor para um ator do que carregar uma marca em uma novela que o faça ser lembrado a todo momento. É só dizer ''Tô certo ou tô errado'' que Lima Duarte vem à mente com o inesquecível Sinhozinho Malta de ''Roque Santeiro''. Já ''Na Chon'' remeterá sempre a Aracy Balabaniam como Dona Armênia, em ''Rainha da Sucata''. O bordão é um recurso corriqueiro nos programas de humor da tevê por provocar o riso fácil, e tem uma origem antiga que vem do circo e do rádio. Mas nas novelas, ele contribui para que um personagem se popularize e caia na boca do povo. ''É por isso que nunca é bom criar um bordão com muita antecedência. Você nunca sabe quando ele vai pegar. Só vendo os personagens para sentir'', defende Glória Perez. Com ''Caminho das Índias'', a autora deve tornar corriqueiros nas rodas de conversa termos indianos como ''Are, Baba'' e ''Namastê'', ao exemplo do que aconteceu em ''O Clone'', quando expressões árabes como ''inshalá'' eram ditas em todos os cantos.
Não há regras para criar um bordão. Às vezes ele é inserido pelo autor no texto e, em outras, sugerido pelo ator. Com Solange Couto, que ficou famosa como Dona Jura, foi sem querer. A atriz conta que, ao pegar os primeiros textos de sua personagem, começou a refletir sobre seus mais de 20 anos de carreira. Ela almejava que aquele trabalho fosse realmente significativo e, em determinado momento, soltou em voz alta ''Né brinquedo, não'', mesclando lamentação e ansiedade. Poucos dias depois, em uma reunião com Glória Perez, a atriz sugeriu a frase e chegou a ficar constrangida com a reação da autora. ''Achei que tinha sido intrometida, mas ao ler os capítulos vi que ela tinha acatado a sugestão e vibrei. Foi um sucesso e é até hoje'', valoriza Solange.
Em um país de tantos sotaques e com um linguajar que varia de região para região, o bordão também acaba se tornando uma linguagem universal. As pessoas sabem que, falando da mesma maneira que na novela, elas serão entendidas em qualquer lugar. Yasmin, a personagem da mineira Mariana Rios em ''Malhação'', retrata bem essa situação. A atriz inseriu em suas falas no folhetim jovem termos antes usados apenas em sua cidade, Araxá. ''E agora para qualquer lugar que eu viajo ouço, 'Jesus, apaga a luz', que é o meu bordão mais falado'', conta a moça.
O mesmo acontece com termos antes restritos a determinados guetos ou classes de profissionais. Depois de empregados em uma trama na tevê, eles acabam sendo inseridos à linguagem coloquial de toda a sociedade. É o caso do Sr. Gomes, personagem de Walter Breda em ''América''. Policial aposentado na história, ele ficou marcado pelo termo ''Copiou?'', um chavão da linguagem militar e policial que indica o fim de uma frase durante conversa por rádio. ''E até hoje sou chamado de Sr. Copiou por aí'', diz Walter.
Quase sempre ligados aos núcleos cômicos ou mais populares das novelas, os bordões algumas vezes também podem ter origem mais rebuscada. Em ''O Salvador da Pátria'', o personagem de Luiz Gustavo se popularizou ao repetir como locutor de rádio ''Meninos eu vi''. A expressão foi retirada do poema ''Y-Juca Pirama'', de Gonçalves Dias, como conta o autor da novela Lauro César Muniz. ''O próprio personagem se chamava Juca Pirama, como no poema. Aí tomei um verso e usei na história também'', confirma Lauro, que aponta esse como um dos bordões mais populares que já ''criou''.
Outro que também já rendeu alguns bordões aos folhetins foi Jorge Amado. Ricardo Linhares lembra que, em ''Tieta'', eles retiraram o termo ''teúda e manteúda'' do livro do autor porque acharam sonoro. ''Mas ele caiu no gosto popular e o povo o transformou em bordão'', recorda o autor. É uma prova de que quem determina mesmo o que é um bordão é o público. Antes de ser falado por todos nas ruas, qualquer invenção de ator ou autor é um termo como outro qualquer.


