Na ponta da língua
A entrevista do Caderno Cony foi feita por Antonio Fernando De Franceschi e Rinaldo Gama, mais perguntas de convidados como Lygia Fagundes Telles, Affonso Romano de SantAnna, Frei Betto, Wilson Martins. Algumas das respostas de Carlos Heitor Cony aos seus inquisidores:
Sobre a morte - Na minha fase atual, a morte não é um problema metafísico, é apenas físico. O que me preocupa é como será a minha morte... Essa incerteza, a certeza da incerteza, ou melhor, a incerteza da certeza é que me preocupa, me dá medo. Mas, insisto, é um medo estritamente físico.
Jornalismo e literatura - O jornalismo me deu unicamente velocidade e concentração. Foi só isso - ele não me deu nada nem quanto à técnica nem em relação a temas.
Influências - É impossível, claro, viver sem influências. Peguem aí os maiores sábios do mundo - todos eles sofreram influência de alguém. Agora, existem influências escolhidas e outras não. No meu caso, Sartre foi escolhido e Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida e Lima Barreto, três cariocas, não.
Poesia - Eu li muita poesia. Nunca fiz poesia. Quer dizer, em Informação ao Crucificado há um poema meu, o hino oficial do seminário - são versos meus; mas nunca fui atraído pela idéia de me tornar poeta. Agora, antes de ler prosa, eu li muito Manuel Bandeira, meu poeta predileto, li Drummond, claro, García Lorca, Horácio (aliás, com Horácio eu me identifico, tem um lado dele que é muito meu). Mas o grande poeta para mim, realmente, é Manuel Bandeira.
Rotina de escrever ficção - Eu sou do tipo que era o Jorge Amado - passo um tempo sem fazer nada. E, de repente, não atendo ninguém - até acabar o novo romance. Tenho medo de interromper um livro. Romance interrompido é romance perdido. Às vezes acontece de eu estar cansado, comecei a escrever às 3 da tarde e são 3 da manhã. Parei para jantar, fumei um charuto. Estou cansado, não aguento mais. Aí, desligo o computador e vou dormir - mas vou dormir com medo. Será que vou terminar amanhã?
Conto - Acho que jamais fiz um conto por conta própria, foi sempre de encomenda. Gosto muito do gênero, mas não sou um contista. Quando começo uma história, por mais simples que seja, vou desdobrando, desdobrando. Se não tiver aquela imposição de cinco páginas, para entregar amanhã para tal revista, eu não faço uma história curta.
A próxima obra - ...quero concluir esse livro, Missa para o papa Marcello. Estou tendo muita dificuldade, porque preciso chegar a uma certeza que ainda não tenho a respeito da minha vida espiritual. Já fiz umas 70 páginas, parei para escrever outros livros, mas sei que esse romance só vai deslanchar quando houver aquela determinação do personagem de aceitar o fator divino na existência. Seja como for, não se trata de uma obra autobiográfica. O problema central do romance é comum a muitas biografias.
A carreira - O jovem não tem de abraçar a literatura, é a literatura que tem de abraçá-lo. É ele que tem de ser escolhido pela carreira literária, e não o contrário. Você pode escolher uma roupa, mas não a literatura, nem outra carreira artística.





