Roberto Cordovani escreveu, produziu e dirigiu ‘‘Isadora Duncan’’ em apenas 35 dias. ‘‘Foi meu recorde’’, avalia, mas tamanha paixão merece uma zona de respeito, quase de esquecimento, onde não se permite ingresso de quem quer que seja. Até mesmo dele.
Como a peça surgiu depois de uma sessão de regressão, onde durante todo o tempo imperou a bailarina como único tema, o ator quer distância desses mistérios. Ou então, que a convivência seja respeitosa, sem maiores intimidades. ‘‘Fiz a peça para me exorcizar; é algo de que não quero falar muito; está meio adormecido e prefiro assim’’, diz.
Para quem escolheu mulheres fascinantes para interpretar, é intrigante perceber que esta é a primeira vez que uma personagem o escolheu. ‘‘Ao cabo de 35 dias o espetáculo nasceu maduro; veio sofrido, com lágrimas certas nos momentos certos.’’ Sob esse aspecto ele é totalmente diferente dos demais trabalhos, que levaram de cinco meses a um ano e meio para chegar ao palco.
Roberto Cordovani entrou na pele de uma mulher no início dos anos 70, quando foi Annie Sullivan em ‘‘O Milagre de Annie Sullivan’’. Depois foi Freulein, na peça de Mário de Andrade, ‘‘Amar, Verbo Intransitivo’’; a seguir Greta Garbo, em ‘‘Olhares de Perfil’’, sua peça mais conhecida e premiada.
Foi Evita Perón em ‘‘Evita’’ (onde cobria-se com vestidos Dior de até 12 mil dólares). Agora é Isadora Duncan e no próximo ano encarnará Norma Desmond em ‘‘O Crepúsculo dos Deuses’’, que será produzido pelo Teatro do Sesi, de Belo Horizonte. ‘‘Realizarei então meu grande sonho’’, afirma. Deixará a Europa para se fixar no Brasil.
Cordovani será no palco a enlouquecida Norma Desmond que Gloria Swanson viveu na tela, dirigida por Billy Wilder. Ex-diva do cinema mudo, 65 anos, acolhe um roteirista desempregado para adaptar a peça ‘‘Salom钒 para o cinema - será a sua volta triunfal, ela imagina. Ambos tornam-se amantes, mas como a fantasia não tem solidez, Norma acaba por assassinar o jovem quando este lhe joga na cara as mentiras das quais ela se nutre.
Enquanto prepara-se para a volta, o ator tem outros projetos em andamento, entre eles a adaptação para o cinema de ‘‘Olhares de Perfil’’, produção sueca e espanhola, que Cordovani quer estender ao Brasil, mais precisamente com investidor curitibano. O script está pronto, afirma; falta fechar as cotas.
Voltando às mulheres que compõem seu repertório, Roberto Cordovani explica que cada uma deixou um ensinamento, uma lição, resquícios para se viver melhor. De todas elas, a mais artista é Isadora Duncan, pela entrega apaixonada, sem reservas. ‘‘Talvez seja a mais santa, no sentido grandioso da arte’’, avalia.
Evita Perón foi política; e Greta Garbo a personificação do mito fabricado pela indústria da diversão. Reinou entre 1928 e 1941, ganhou rios de dinheiro e saiu de cena, por conta própria. Da galeria feminina ela foi o papel mais masculino que o ator representou. ‘‘Greta é um sargento’’, compara.
Para ser Eva Peron, Cordovani emagreceu sete quilos, descoloriu o cabelo ‘‘e vomitava em cena’’. Era uma mulher em pedaços, mesmo assim era uma miss, glamourosa. Ajeitar-se em Isadora exigiu trabalho extra. ‘‘Foi difícil porque ela tinha seios enormes, pesava 82 quilos, não tinha cintura.’’
Uma curiosidade: tanto Isadora como Greta ensinaram ao moço como romper as relações, sejam elas quais forem, sem sofrer. Ou então, sofrendo na medida certa, deixando o barco correr. Jamais querer interromper o andamento da vida por mágoas do coração. Essas mágoas devem ser diluídas para se ter leveza para os dias que virão. ‘‘As mulheres que interpretei são fortes, atípicas. Não são fêmeas’’, traduz.
Elas convivem pacificamente dentro de sua alma: ‘‘Sinto como se cada uma estivesse num quarto me esperando. Se um dia tiver que enlouquecer, quero que seja com essas personagens, porque no fim tudo termina com muito amor.’’ Mas, qual seria o traço comum entre elas? ‘‘O platonicismo’’, responde.
‘‘Elas passaram a vida com a porta entreaberta. Nada é por inteiro, daí que me entristece um pouco; daí que cada espetáculo que começo é como se fosse o primeiro e termino como se fosse o último’’, conclui.(Z.C.L.)

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