Na pele de um herói
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terça-feira, 07 de janeiro de 2003
Roberta Brasil<br> TV Press 
No Rio Grande do Sul, é comum se dizer que a oportunidade é um cavalo encilhado, que cruza o caminho de alguém com rédea, arreio e cela, pronto para ser montado. Naturalmente, bons cavalos e boas oportunidades não aparecem todos os dias. O ator gaúcho Werner Schunemann sabe disso. E compara o convite do diretor Jayme Monjardim para protagonizar ''A Casa das Sete Mulheres'', ao lado de Thiago Lacerda e Giovanna Antonelli, a um cavalo raríssimo, que cruzou sua frente. ''Eu o agarrei e decidi montar. Agora, estou totalmente absorvido pelo trabalho'', diz ele, com tamanho entusiasmo que não deixa qualquer dúvida.
Na próxima minissérie da Globo, que estréia hoje, Werner interpreta o líder da Revolução Farroupilha, General Bento Gonçalves. A história é ambientada no extremo Sul do país, no período de guerras, entre 1835 e 1845. Trata-se de uma livre adaptação de Maria Adelaide Amaral para o livro ''A Casa das Sete Mulheres'', de Letícia Wierzchowski. Para as mulheres citadas no título, foram dez anos de espera pelo fim da guerra e pelo retorno dos homens à família. Bento Gonçalves é o patriarca. ''O Bento, assim como o General Netto, braço-direito dele, e o Giuseppe Garibaldi são figuras históricas. Heróis que o Brasil não conhece'', enaltece o ator, que é formado em História.
De fato, Bento Gonçalves foi um grande proprietário de terras e estrategista político, que defendia a independência do Rio Grande do Sul. Para Werner, contudo, o personagem e o contexto histórico da Revolução Farroupilha não eram novidades. O ator interpretou Antonio de Souza Netto, um dos oficiais de Bento, no filme ''Netto Perde Sua Alma'', de Tabajara Ruas e Beto de Souza. Sua atuação rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Brasília, este ano. O trabalho chamou a atenção do diretor Jayme Monjardim, que viu nele o intérprete ideal para o próprio Bento. Embora enfatize vários pontos em comum entre os dois papéis, como a coragem e o amor pela terra, Werner faz questão de ressaltar uma diferença. ''O Netto era passional. O Bento é calculista. Ele não é um revolucionário romântico. É um senhor da guerra'', enaltece o ator, um dos fundadores da Casa de Cinema e que, atualmente, preside a Fundacine, também em Porto Alegre.
Com 43 anos de idade e 26 de carreira, Werner Schunemann já contabiliza 20 filmes no currículo: entre eles, ''Tolerância'', de Carlos Gerbase, e ''A Paixão de Jacobina'', de Fábio Barreto. A grande maioria, porém, ficou restrita ao circuito do Rio Grande do Sul. Esta é a primeira vez que o veterano da tela grande se rende a um convite para fazer televisão. Até então, ele só era lembrado para participações e papéis secundários, que gentilmente recusava. ''Simplesmente prefiro fazer bons trabalhos. O que tem acontecido mais no cinema. A televisão é minha última fronteira'', diz o ator, acrescentando que o fato de morar em Porto Alegre e não no eixo Rio-São Paulo, onde ficam as principais emissoras de tevê tornam os convites ainda mais raros.
Para incorporar o personagem, Werner não poupa esforços. Durante a primeira etapa de preparação, no Rio de Janeiro, ele chegou a treinar montaria e técnicas de guerra durante 12 horas diárias. ''O restante do dia passava no hotel, pesquisando a época e pensando no Bento. Até desliguei o celular para ninguém me encontrar'', conta. Agora, o ator vem gravando as cenas de guerra em cidades como Uruguaiana, Itaimbezinho, Pelotas e São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul. O ator divide a maior parte das cenas com Thiago Lacerda, intérprete do italiano Giuseppe Garibaldi, e Dalton Vigh, no papel de Netto. ''O Bento é um personagem riquíssimo, cheio de abismos e também de nobreza e dignidade. Confio cegamente no Jayme para me guiar. Mas a minha alma está alvoroçada'', diz o ator, arregalando os olhos verdes.


