Nicete Bruno completa, esse ano, meio século de carreira. Foram tantos personagens que a atriz já nem calcula mais. Mas, mesmo com esta vasta experiência, só agora Nicete faz a primeira vilã na TV. A atriz dá vida a Úrsula, uma rica fazendeira que tem como objetivo destruir a nora Sofia, papel de Beth Lago, na novela ‘‘O Amor Está no Ar’’. O perfil de vilã, no entanto, não combina com o jeito mãezona da atriz. ‘‘Estou aprendendo com a Úrsula tudo o que não devo fazer’’, enfatiza.
Ao contrário do personagem, Nicete está sempre de braços abertos para acolher e apoiar todos da família. ‘‘Carreira e família sempre tiveram um peso muito grande para mim’’, constata. Essa capacidade de unir trabalho e vida familiar, que para muitos parecem ser inconciliáveis, Nicete diz que herdou da avó Rosa. Ela era professora de piano, médica e ainda encontrava tempo para estimular o lado artístico dos filhos e netos. ‘‘Minha avó nos criou com um sentimento de autocrítica muito grande’’, afirma.
Nicete carrega até hoje esse sentimento. A atriz quase nunca fica satisfeita quando vê seu trabalho na TV. ‘‘Sempre acho que poderia ser mais contido ou mais explosivo’’, imagina. Mas não é a única que paga pela autocrítica hipertrofiada. Ela permeia a relação com os filhos Paulo, Beth e Bárbara. Embora se comporte como qualquer mãe. ‘‘Gosto de telefonar, gosto que me telefonem. Mas não telefono muito para não chatear’’, admite.
Talvez o maior encanto de Nicete Bruno para o grande público seja exatamente o fato de ser uma dona de casa absolutamente normal. A diferença é que aparece na televisão e sobe em palcos teatrais. Na sala, a atriz mantém um abajur e um sofá - faz questão de afirmar que a palha do acento é original - que pertenceram à avó. ‘‘Cada peça de mobília tem uma história’’, enfatiza. Alguns dos objetos foram tirados dos cenários em que ela e o marido Paulo Goulart atuaram. Como boa dona de casa, Nicete não admite desperdícios. E o resultado não destoa: reflete bem o jeito mãezona da atriz.



Como está sendo fazer esta primeira experiência como vilã na TV?
Nicete Bruno - Nesses 50 anos de profissão, já fiz algumas vilãs. Todas no teatro, onde esse estereótipo de vilã e mocinha não se adapta muito bem. Em teatro, há personagens positivos e negativos. Posso dizer que a Úrsula é passional, egoísta e frustrada. Claro que existem razões para que seja assim e, de qualquer maneira, ela não tem uma índole negativa. Já assisti a alguns capítulos em que a Úrsula estava espumando de raiva. Achei uma loucura. É impossível uma pessoa ter tanta raiva assim.
Ela tem um tipo de temperamento maquiavélico?
Nicete Bruno - O Maquiavel da história é o Alberto, personagem de Luís Mello. A Úrsula não é tão consciente, é mais passional. Para mim, a vida anterior da Úrsula foi a de uma menina voluntariosa, que quando queria as coisas e não conseguia, partia para a chantagem emocional.
Você está notando no público algum tipo de reação contra o personagem?
Nicete Bruno - Acredito que o público já consegue diferenciar a atriz da personagem. Muitas pessoas me param na rua para me parabenizar pela Úrsula. Mesmo depois de algum capítulo em que ela age como uma verdadeira víbora.
O principal motivo do ódio de Úrsula é o fato da nora Sofia ser judia. Como você analisa o preconceito na novela?
Nicete Bruno - É fundamental discutir e mostrar o preconceito na TV. Às vésperas do ano 2000, é inconcebível que ainda exista preconceito contra judeus, portugueses, orientais, negros e tantos outros grupos.
A demonstração explícita do preconceito não corre o risco de acentuá-lo?
Nicete Bruno - Ao contrário, acho que muitas pessoas têm um preconceito velado, que é refletido em pequenas atitudes. São piadas e posturas que podem parecer coisas bobas e insignificantes, mas que são encontradas em um número muito grande de pessoas. Se esse preconceito é evidenciado na novela, as pessoas podem despertar para o fato de ele existir. O processo de respeito ao ser humano melhorará. Isso tem de acontecer, do contrário não haveria por que estarmos aqui.
Você acredita mesmo no fim do preconceito?
Nicete Bruno - Como vivencio personalidades diferentes, tenho a oportunidade de estudar as emoções das pessoas. Às vezes, algum personagem faz determinadas coisas e não sente o que está realizando. Eu aprendi a não julgar ninguém. É muito fácil julgar pelas atitudes aparentes. Em função dos personagens que já vivenciei, não acredito que exista alguém totalmente ruim ou totalmente bom. Todas as pessoas têm diversas gamas de sentimentos incubados dentro de si. Cabe a cada um estimular o lado melhor.
No elenco da novela, você é uma das atrizes com a maior experiência. Seria uma espécie de sustentáculo para o jovens atores, como Rodrigo Santoro e Natália Lage, que estão pela primeira vez protagonizando?
Nicete Bruno - Acho a renovação de valores fantástica. Tenho o melhor contato possível com os jovens atores. Passo para eles as minhas experiências, eles me sugerem coisas novas. Um ator não é estático, tem sempre de aprender coisas novas. Nosso caminhar é esse, com a consciência de ter muito a aprender. A Natália, por exemplo, está pela primeira vez protagonizando, mas ela já tem muita experiência. É claro que ainda tem muito o que aprender, pois se até eu tenho...
Você ainda descobre novidades na carreira?
Nicete Bruno - Esse ano, por exemplo, fiz Gertrude Stein, com texto do Alcides Nogueira. Ela foi uma escritora americana que se mudou para Paris em 1903. Foi amiga de Picasso e Matisse e viveu um romance homossexual com Alice Toklas. Era um verdadeiro homem, em todos os sentidos, menos na sensibilidade, porque na alma não existe homem ou mulher. Ninguém imaginava que eu poderia fazê-la. Depois veio a Porcina, no musical Roque Santeiro, de Dias Gomes. Ela era totalmente o inverso, tinha a feminilidade saindo pelos poros, era coquete...
Como é o processo de assimilação de personagens tão diferentes?
Nicete Bruno - Ou você é engolido pelo personagem ou o domina. Geralmente, o processo de conhecer suficientemente o personagem, para poder brincar com as emoções dele, demora um mês no teatro, que é o tempo do ensaio. Em TV, esse tempo é reduzido para 15 dias. É a rapidez mental da TV, comparada com o ritmo artesanal do teatro.
No meio de tantos personagens, você tem algum especial?
Nicete Bruno - Nunca tive um papel preferido. Houve uma época em que tinha vergonha de declarar isso. Eu pego uma peça, às vezes, e admiro um personagem, mas se eu não estou programada para realizá-lo não fico planejando. Sempre misturei muito minha vida pessoal com a profissional. As coisas já chegavam para eu fazer, então eu objetivava aquele papel.
Como você concilia a família com a carreira?
Nicete Bruno - A família e a carreira atuam paralelamente, cada uma com um peso diferente a cada momento. Existiram períodos da minha vida em que estava totalmente dedicada aos filhos. Acho a presença da mãe fundamental para o primeiro ano de vida de uma criança. Também houve situações em que a carreira falou mais forte, tive de viajar e toda a família ajudava para que as crianças não ficassem sozinhas. Tudo num sentido comunitário, com todos torcendo unidos.
A competição não acontece numa família onde todos têm a mesma profissão?
Nicete Bruno - Nunca houve competição, nem vaidade. Procuramos nos entender. Acho que a profissão de ator dá essa possibilidade de análise do ser humano. Isso fez com que eu me modificasse, entendesse os meus filhos. De quatro em quatro anos, eu tive um filho. Parece um período pequeno, mas há uma grande diferença entre as gerações. Por isso, tive de estar sempre me renovando. Hoje, tenho três filhos e sete netos e respeito cada um deles.
Com essa relação familiar tão equilibrada, você não sente raiva da Úrsula, que se vira até contra a filha para ficar do lado do genro nos trambiques?
Nicete Bruno - Não imagino um final terrível para o personagem. O que acho extraordinário no autor Alcides Nogueira é que os acontecimentos são muitos rápidos. Você não tem de esperar até o final para ver o vilão ser punido. Se o que ela planejou é uma coisa imediata, a resposta vem em seguida. A Úrsula está se dando mal a cada momento e mesmo assim não desiste. Espero que ela mude de atitude.

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