Na Onda do Midnight Oil
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quinta-feira, 22 de maio de 1997
Fabiano Camargo Sucursal de Curitiba 
DivulgaçãoMidnight Oil: show no Marumby Expo Center começa à meia-noiteO Midnight Oil é considerado um dos maiores expoentes da chamada surf music. Na verdade, é muito mais do que isso. A música que o quinteto australiano produz não cai bem apenas em vídeos de surf ou festas na praia. Liderado pelo vocalista Peter Garret, o grupo consegue alinhar na mesma veia belas melodias, momentos de grande pegada, poesia e uma postura política que, apesar de firme na luta a favor da ecologia e contra o abismo social que isola boa parte da humanidade, não descamba para um panfletarismo forçado.
Fechando sua segunda turnê brasileira em Curitiba com uma apresentação, hoje, no Marumby Expo Center, à meia-noite, o Midnight Oil chega acompanhado por um currículo de grandes apresentações ao vivo. Pelo que a banda já mostrou nas outras quatro cidades visitadas no País, pode-se esperar uma jornada de grande energia.
Com duração de quase duas horas, o repertório mistura - na medida certa - composições do novo disco, Breathe, com hits como Beds Are Burning, Blue Sky Mining, Hercules, Warakurna, The Dead Heart e Sometimes. Tudo temperado por uma das grandes qualidades da banda: conhecer como poucas a arte de dominar um palco e os atalhos para envolver a platéia.
Em entrevista exclusiva à Folha2, concedida na quinta-feira, o vocalista Peter Garret reafirmou que a banda realmente se sente melhor tocando ao vivo. Quando subimos num palco e começamos a tocar, esquecemos de tudo. É mágico, disse Garret, pelo telefone celular de um produtor, enquanto esperava no Aeroporto de Florianópolis pelo avião que levaria o grupo até Porto Alegre, penúltima parada da turnê.
Na conversa reproduzida abaixo, o emblemático vocalista falou ainda sobre surf, inspiração e ecologia (um dos temas principais das letras de Garret), além de ter revelado o que anda tocando no seu aparelho de som. Hoje, além do show, a banda tem um almoço marcado com o prefeito de Curitiba, Cassio Taniguchi, para falar sobre assuntos de ecologia. O vocalista Peter Garret é ativista ecológico e já foi presidente do Greenpeace australiano.
A banda está na estrada já há um bom tempo (foi fundada em 1975). Qual o segredo para manter a energia?
Peter Garret - Também não é tanto tempo assim, não somos tão velhos... (risos) . A energia da banda é uma coisa que não entendemos completamente. Acho difícil traduzir música em palavras, mas comparando com o início, a mágica de tocarmos juntos continua muito forte. A música é como uma cola que nos mantém unidos. Uma coisa engraçada acontece dentro da banda: mesmo que estejamos tristes ou cansados, quando subimos no palco e começamos a tocar esquecemos de tudo. É realmente mágico.
O Midnight Oil é mais que cultuado pelos surfistas. Para você, qual a relação entre surf e música?
Peter Garret - Há um relacionamento muito forte entre nosso som e o surf. Tem a ver com nosso país, a Austrália, que possui muitas e belas praias. Desde o começo da banda, já tocamos muito em pubs próximos às praias e também nas próprias praias, na areia mesmo. Eu e outros integrantes, nos tempos de escola, passávamos a maioria do tempo surfando. Atualmente, alguns integrantes ainda pegam onda, incluindo eu. Quer dizer, sempre estivemos próximos da praia e do mar. O surf faz parte da história da banda.
Você surfa com frequência?
Peter Garret Sim, sempre que posso... o que quer dizer que não posso surfar o tanto quanto gostaria. Ontem (quarta-feira) mesmo, estive na água, na praia da Guarda (Guarda do Embaú, em Santa Catarina). Foi brilhante... O mar não estava muito grande, mas o lugar é maravilhoso. Para mim, surfar também é uma oportunidade de sair da cidade, de ver belas paisagens, de abrir o espírito para a natureza.
Como você se sente, vindo do outro lado do planeta, e encontrando tantos fãs num país tão diferente? O que poderia explicar esta identificação?
Peter Garret - Você que deve explicar: como jornalista, é o seu trabalho explicar as coisas (risos)... Para nós, é realmente gratificante encontrar um público tão receptivo longe de casa. O que poderia explicar isso? Talvez o rock seja uma linguagem universal mesmo, uma linguagem capaz de despertar uma energia primal em culturas muito diferentes.
Vocês sempre tiveram uma preocupação com a ecologia. O que uma banda de rock pode fazer, efetivamente, pela conservação do planeta?
Peter Garret - Sozinha, uma banda não pode fazer nada. A preocupação com a natureza depende das pessoas, do que elas querem fazer com sua vida, do que esperam dos seus governantes. O que podemos fazer na nossa música é refletir sobre a vida e isso pode fazer as pessoas pensarem também. Mas não temos a intenção de ficar dizendo o que os outros devem fazer. Por outro lado, uma banda pode se integrar a ações que tenham um sentido. Um dos nossos shows mais memoráveis, por exemplo, foi aquele em Nova York, em 89, na sexta avenida, no protesto contra o desastre ecológico causado no Canadá pelo vazamento de óleo do petroleiro Exxon Valdez. Tocamos na frente do prédio sede da Exxon. Foi uma noite com muita paixão.
O show aqui em Curitiba será o último desta turnê brasileira. O que você achou deste novo giro pelo País?
Peter Garret - Foi muito legal. Ficamos mais tempo do que da outra vez (em 1993) e assim pudemos conhecer mais o País. Comparado com o que vimos na nossa tour anterior, parece que existem mais bandas produzindo, o que é muito bom. Também ficamos felizes de ver que a economia parece mais estável. Para nós, viajar é sempre uma inspiração. Isso não quer dizer necessariamente que eu vá sentar e escrever uma canção sobre o Brasil, mas viajar traz experiências que vão sendo absorvidas e com o tempo vão emergindo.
O que você anda escutando atualmente? Cite algumas bandas que vem fazendo sua cabeça?
Peter Garret - Radiohead é uma das bandas que tenho gostado. Também tenho escutado muito U2, que continua mantendo sua capacidade de mudar a cada trabalho. E entre os novos grupos da Austrália, recomendo o Regurgitator.


