Na Netflix, uma terapia mais ou menos certa
Filme argentino parte de atraente mergulho psicanalítico amparado por dupla protagonista, mas a opção pelo thriller enfraquece a proposta
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Filme argentino parte de atraente mergulho psicanalítico amparado por dupla protagonista, mas a opção pelo thriller enfraquece a proposta
Carlos Eduardo Lourenço Jorge, Especial para a FOLHA 

Cinema e psicanálise destacaram a importância do imaginário na construção da subjetividade e investigaram, por vias diversas, as formas de acesso à realidade que as imagens proporcionam. A partir dessa convergência de interesses, o cinema incorporou várias categorias da psicanálise ao estudo do fenômeno cinematográfico e à análise de sua linguagem, relacionando os mecanismos do filme aos mecanismos do inconsciente.
A psicanálise possui uma trajetória longa e notável no universo audiovisual. Sem contar os filmes que, de certa forma, trazem a sua marca (sendo a filmografia de Woody Allen um exemplo fundamental), obras como o recente “Vida Privada” (Vie privée, 2025), da francesa Rebecca Zlotowski; “Um Método Perigoso” (A Dangerous Method, 2011), de David Cronenberg; ou “Máfia no Divã” (Analyze This, 1999), de Harold Ramis, abordam a figura do psicanalista — quase sempre focando no distanciamento entre o seu referencial teórico e a forma como ele o coloca em prática.
É justamente esse binômio que aparece em suspenso logo no início do longa “A Terapia Certa”(Lo Dejamos Acá, 2026), no catálogo da Netflix, quando o consagrado psicólogo Ulises Verón (Ricardo Darín) decide, em plena cerimônia de premiação de uma fundação, recusar o prêmio. Sua motivação é a percepção de que, durante grande parte de sua carreira, ele não "agiu" – limitou-se a falar, sem conseguir ajudar seus pacientes (ele se refere, em particular, a um caso que não terminou nada bem...).
Nesse mesmo evento encontra-se Martín Bouchard (Diego Peretti), romancista aclamado que, pouco tempo depois, aparece no consultório de Verón sofrendo com a falta daquela inspiração que, no passado (com a ajuda do álcool...), lhe permitiu construir toda a sua vitoriosa carreira de escritor. Combinam a realização de sessões de terapia com um custo exorbitante — valor que ele, contudo, está disposto a pagar, mesmo que isso signifique submeter-se a uma série de intromissões disfarçadas de terapia.
COMÉDIA E SUSPENSE
As diretrizes deste mix de comédia com suspense ficam mais ou menos evidentes em menos de meia hora de projeção, quando o roteiro de Emanuel Diez apresenta uma galeria de personagens secundários – pacientes, no caso (Inés Efrón, Pata Echegoyen e Andrés Granier, atores pouco conhecidos no Brasil) – que ajudam a delinear essa “psicanálise pragmática” de contornos bastante questionáveis, com a qual Verón atende seus pacientes.
Há também uma apresentadora de TV em programa popularesco tipo “a tarde é nossa”, alguém que comanda com entusiasmo um quadro de perguntas e respostas ao psicanalista-estrela (Verón, claro) além de uma filha/assistente (a jovem atriz Antonia Bengoechea, sobrinha de Darín na vida real) que funciona como uma espécie de bússola moral para seu chefe/pai/mentor.
Todo o elenco secundário, aliás, é de bom calibre, assim como a dupla protagonista que, embora construída sobre arquétipos bastante reconhecíveis, consegue cenas (e sequências inteiras) de fina execução.
Uma pena que o diretor não tenha conseguido manter o tom ácido de comédia negra (quando Darin está melhor) que sustenta boa parte do filme, transformando a reta final em algo cômodo e desprovido de audácia.


