Na medida certa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de dezembro de 1996
Antônio Mariano Júnior 
Às vezes, ela acerta. E o alvo atingido por Simone é Café com Leite (Polygram), seu 23º disco em que homenageia um dos maiores sambistas do Brasil: Martinho da Vila. É mais um projeto especial que vem se somar a outros - alguns fracos - que jogam loas a um determinado compositor. Trata-se de um trabalho que traz uma Simone mais preocupada com a qualidade de seu repertório que, nos últimos anos, vinha se mostrando em franca decadência.
Café com Leite tem 12 faixas escritas por Martinho e parceiros. Para arranjá-las, Simone convocou grandes nomes como César Camargo Mariano, Dori Caymmi, Heitor T.P. e Júlio Teixeira. Além disso, há presença de cordas na maioria das músicas, por vezes desnecessárias ou excessivas mas não comprometedoras por completo. Cordas, diga-se de passagem, gravadas em Londres sob regência de Graham Preskett.
O repertório é bem equilibrado. Há pérolas e grande sucessos como Madalena do Jucu (Martinho da Vila-Associação dos Congadeiros do Espírito Santo) e Canta, Canta Minha Gente (Martinho da Vila). E são justamente nessas duas faixas que residem os pontos fracos do disco por causa dos arranjos que deixaram o batuquê um tanto quanto pasteurizado.
Ainda falando em arranjos, Dori Caymmi fez maravilhas em Iaiá do Cais Dourado (Martinho da Vila-Rodolfo) que valorizou o canto de Simone. Ele, inclusive, faz pequena participação com vocalises ao estilo das canções praieiras do pai, Dorival. Outra maravilha assinada por ele é Beija-me, Beija-me (Zé Catimba-Martinho da Vila) carregada de um luxuoso naipe de metais.
Serenidade vocal Mas o mérito de Café com Leite se deve à interpretação de Simone. Em vez da tradicional gemeção, ela optou pela sobriedade sem, no entanto, ser retilínea. E é com serenidade vocal e com sensualidade bem dosada que a cantora faz de Disritmia (Martinho) a melhor faixa do disco. Acompanhada pelo piano de César Camargo Mariano e com interferências leves de cordas, o então sambão se transformou numa balada romântica. Agora, sim, é possível sorver toda a poesia contida na letra.
Outro dois grandes momentos do disco: Maré Mansa (Martinho e Paulinho da Viola) e a belíssima Ex-amor (Martinho da Vila) que conta com a participação do homenageado. Aliás, Simone e Martinho já haviam gravado essa música, ao vivo, no disco Casa de Samba, idealizado por Rildo Hora que também assina a produção gravada em estúdio.
Claro,Café com Leite está a anos luz da cadência e malemolência que Martinho imprime aos seus discos. Pode soar, para uns e outros, estilizado até demais. É que em vez de fazerem um autêntico disco de samba, Simone e companhia optaram por revestir com elegância parte do cancioneiro de Martinho da Vila. O resultado final pode não ser excelente, mas é, no mínimo, satisfatório e verdadeiro. Talvez porque Simone se mostre menos erótica e mais intérprete.


