A versatilidade cênica de Mateus Solano se evidencia a cada personagem. Até na pele dos bons moços que acumulou no currículo, o ator conseguiu se reinventar através de um trabalho de composição sólido. Agora, em "Amor à Vida", ele se desvencilha completamente do perfil heroico para interpretar um vilão complexo como o Félix. "Falei para o Walcyr (Carrasco) que ele me deu um personagem que é um parque de diversões", salienta, referindo-se ao autor do folhetim.
Cria do teatro, Mateus nunca teve na televisão um objetivo de carreira. Mesmo fazendo pequenas participações no veículo desde 2003, foi só a partir de "Maysa – Quando Fala O Coração", minissérie exibida pela Globo em 2009, que ele passou a encarnar papéis de destaque na teledramaturgia. Entre eles, os gêmeos Jorge e Miguel, de "Viver A Vida", e Mundinho Falcão, de "Gabriela".
"Uma coisa que vi em mim, quando fiz o Bôscoli, em ‘Maysa’, foi que consegui trazer minha qualidade de ator do teatro para a televisão. Isso é muito bom e não quero perder", frisa ele, que gosta de concentrar suas energias para o papel que interpreta no momento. E não se deixa apegar por personagens marcantes do passado. "O que vem depois a gente não sabe e o que foi já foi. Então, o papel mais importante da minha carreira é o Félix. Quando eu estiver fazendo o sicrano, vai ser o sicrano", simplifica Mateus, que, antes de ganhar mais espaço nas produções globais, ficou conhecido por protagonizar a campanha "O Ligador", da Oi.

É a primeira vez que você interpreta um vilão na tevê. Como foi sua preparação para o papel?
A gente ficou bastante com o Sergio Penna (preparador de atores para cinema e televisão), uma coisa rara e que era muito necessária. Acho que é muito necessária em uma Globo de hoje, que está querendo resultado e começa a perceber que a qualidade do trabalho do ator é essencial para o sucesso dos produtos. E a preparação com o Sergio Penna foi um ganho danado nesse sentido. Ele nos ajudou muito. Além disso, li e busquei coisas sobre maldade.

Como assim?
Li o livro "O Efeito Lúcifer". O livro fala sobre como pessoas boas se tornam más, dá uma esmiuçada na maldade, no que faz o ser humano ser mau, o que falta ou o que sobra. Fala sobre desvio de caráter e de onde ele pode vir. Fiquei nesses lugares de entender como a pessoa pode ser má e seguir a vida normalmente, tendo consciência de que é uma coisa mal vista socialmente, mas que, para ela – e para o personagem – é a melhor opção mesmo. E nem titubeia antes de fazer uma maldade. Vi coisas sobre o nazismo, uma época em que um cara – Hitler – hipnotizou todo um povo. Também a força da sedução de um psicopata, de um cara mau, de como ele consegue ir no ponto fraco de quem está ouvindo e convencer. Estudei essa coisa da lábia, do convencimento. Fui para esse lado para também não ficar o Félix malvado e um bando de idiota que acredita em tudo que ele fala envolta, para ser justificável ele não ser desmascarado.
Você coleciona alguns bons moços no currículo, como o Mundinho de "Gabriela" e os gêmeos Jorge e Miguel de "Viver A Vida". Tinha vontade de fazer um vilão?
Eu tenho vontade de fazer tudo. E o que eu acho mais bacana da minha trajetória nesses anos é ver que me dão sempre coisas diferentes umas das outras. Comecei com várias participações de comédia. Mas comecei mesmo com o Bôscoli, em "Maysa – Quando Fala O Coração", que foi demais. Depois, vieram os gêmeos, que nem preciso falar a diferença que era entre os dois. Em seguida, veio um cientista, em "Morde & Assopra", e o Mundinho, em "Gabriela", que era um grande progressista da década de 1920. E, agora, um vilão. E o Walcyr faz o Félix bem complexo. Fiz personagens bem diferentes. Isso é o que mais me interessa. O que eu quero mesmo é essa coisa camaleônica.

Você faz participações na tevê desde 2003. Mas por que, antes de "Maysa", não investiu mais no veículo?
Eu nunca fui incentivado à televisão. Nem como espectador e nem como ator. Eu sempre fui muito apaixonado e sou até hoje pelo teatro. Me apaixonei também pela televisão, mas não era uma coisa que eu buscava. Foi algo que, naturalmente, surgiu. O Nelsinho Fonseca (produtor de elenco) é um grande responsável porque me assistiu em várias peças e me chamou para fazer um teste para "Maysa".

Até que ponto o tamanho do personagem que você interpreta em uma trama tem importância?
Para mim, não tem a menor importância. Acho que personagem grande é aquele que a gente faz com carinho e amor. Eu sou primo de Juliana Carneiro da Cunha, que ganhou um prêmio de melhor atriz fazendo uma muda e contracenando com Fernanda Montenegro. Não tem essa de personagem grande e personagem pequeno. Por ter muita fala? Tem ator assim, que conta as falas. Realmente, acho um absurdo. O que importa é você estar lá, dentro do personagem, fazendo muito bem. Eu vejo, inclusive, atores muito experientes falando que não querem fazer protagonista de jeito nenhum porque protagonista trabalha muito. E, normalmente, os melhores personagens são aqueles que estão ali do lado, é aquele gago no cantinho dele. Espaço e tamanho são coisas conquistadas. Não tem a ver com número de falas.

Por conta de seus personagens na tevê, você se tornou um ator conhecido. Como lida com a fama?
A gente tem de se esforçar para não mudar. Não por ego, mas por medo de sair na rua mesmo (risos). O ator é um observador, é um espectador da vida para depois reproduzir no palco, na tevê ou onde seja. E, agora, ele vira o observado. E o gostoso de ser ator é observar as pessoas, ver como elas se comportam. Agora, se eu cruzo o olhar com qualquer pessoa, a pessoa me reconhece. E, na verdade, não me reconhece; reconhece aquilo que ela acha que eu sou. Então, é uma maluquice, é "O Show de Truman" (filme de 1998 protagonizado por Jim Carrey). É uma inversão, você vira referência. Mas, de uma maneira geral, o carinho é muito bom. Basta saber lidar bem com ele e saber lidar com o fato de que você vai sair na rua e vai ser reconhecido. É uma coisa que assusta no início, mas depois é maravilhoso.

mockup