Na escola de um Bamba

O cantor,
compositor e
violonista Jards
Macalé está
de disco novo
na praça
ReproduçãoJards Macalé: volta ao disco depois de dez anos sem entrar no estúdio
Nelson Sato

Uma voz rouca, anasalada, incomum. Um violão bastardo, desafiador, sem filiações reconhecíveis. Jards Macalé, 56 anos, uma das figuras de proa da moderna música brasileira, salta mais uma vez do ostracismo com uma nova coleção de canções, a maioria delas assinada em parceria com companheiros de geração.
O Q Eu Faço é Música, o CD, está saindo pelo selo Atração Fonográfica. É seu sexto disco de carreira. A capa traz uma foto sua quando criança nas mãos de seu pai. Ao sair da gráfica, porém, as cópias saíram com a reprodução apagada, o que deixou o artista insatisfeito. ‘‘Pedi para eles pararem tudo e imprimirem novamente’’ - conta ele.
O CD reúne 16 faixas. Entre as memoráveis consta, por exemplo, o samba-canção ‘‘Destino’’ e o hino marcial ‘‘Rei de Janeiro’’. O primeiro é um poema de Torquato Neto, que traz o verso ‘‘O destino do poeta é grande’’. O segundo é um poema de Glauber Rocha, cantado pelo grupo vocal As Gatas. Também primorosa é a regravação de ‘‘Movimento dos Barcos’’, feita em parceria com Capinan e já incluída em seu álbum de estréia de 72.
O repertório do disco, aliás, é repleto de reinterpretações. Macalé registra pela primeira vez ‘‘Vapor Barato’’, com letra de Wally Salomão e revisitada recentemente por Gal Costa (sua intérprete original) no Acústico MTV e pelos grupos cariocas O Rappa e Vulgue Tolstoi. ‘‘Poema da Rosa’’, que ele musicou de Brecht, já figurava em seu álbum Contrastes de 1977. E por aí vai.
O Q Faço é Música trouxe de volta também o guitarrista Lanny Gordin, que participa de duas faixas. Macalé dedica o trabalho a três Lygias: à sua mãe, à artista plástica Lygia Clark e à personagem homônima da célebre canção de Tom Jobim. A seguir, leia entrevista com o músico feita por telefone.





Seu último álbum de estúdio, ‘‘Quatro Batutas e um Coringa’’, é de 1987. Por que você demorou tanto tempo para lançar um novo trabalho?
Jards Macalé - Eu passo por uma outra via de mercado, uma via que eu escolhi. É uma via pessoal, eu diria até especial, porque eu faço o que quero, o que tenho vontade de fazer e quando sinto que tenho elementos suficientes para desenvolver um novo trabalho. Eu me lembro quando todo mundo gravava um disco por ano, e eu gravava a cada dois anos. Nessa época (anos 70) comecei a compor trilhas sonoras para Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e outros diretores e fui fazendo essas coisas ao mesmo tempo em que me enchia do mercado fonográfico. Resumindo: tudo o que faço é por um único motivo: o prazer. Tirou o prazer do lance, tire meu nome da lista.
Como foi essa volta ao estúdio? Você reuniu várias canções e parcerias antigas nesse novo álbum. Como foi a escolha do repertório?
Jards Macalé - É preciso dizer que só gravei esse disco por causa do Wilson Souto Júnior, que me convidou e que foi o responsável também por eu ter lançado o ‘‘Quatro Batutas..., quando ele era o diretor artístico da Continental. Quando ele saiu de lá, as gravadoras deixaram de me interessar, elas já me falavam mais ao p....
Tem muita coisa do seu passado nesse disco, antigas canções, velhos amigos...
Jards Macalé - Eu quis recuperar algumas composições que dão uma visão contemporânea da música e da cultura do Brasil. Acho que deveria resgatar ‘‘Vapor Barato’’, porque ela virou um hit e eu nunca a tinha gravado. Queria dar uma outra interpretação, assim como com ‘‘Movimento dos Barcos’’, de primeiro disco. No caso das parcerias, o Torquato Neto sempre foi meu parceiro de uma música só, a ‘‘Let’s Play That’’. Acho que estava na hora de musicar os poemas ‘‘Destino’’ e ‘‘Dente no Dente’’, que ele me deixou alguns dias antes do suicídio. O Glauber também me deu esse poema ‘‘Rei de Janeiro’’ nos anos 70. E tem ainda as canções que fiz com o Abel Silva, o Xico Chaves...
No disco, você não tem parceria com nenhum compositor da nova geração. Tem algum nome surgido nos últimos 20 anos com quem você gostaria de trabalhar?
Jards Macalé - Tem muitos talentos por aí, alguns excepcionais, mas os que me tocam ao coração e à alma, eu aproveito, eu aborvo. Decidi não dar nomes aos bois. No Brasil, cada vez que você cita nomes, vira fofoca. Eu prefiro que cada um bata a sua carapuça.
A versão de ‘‘Blue Suede Shoes’’, incluída no novo disco, foi feita na época de seus primeiros trabalhos ou é recente?
Jards Macalé - Essa versão saiu num compacto em 87 gravado só para divulgação em rádio. Tinha de um lado a música ‘‘Rio Sem Tom’’, que fiz em homenagem ao Rio e a Tom Jobim, e de outro lado tinha a minha versão dessa música de Carl Perkins. Virou um samba-rock. Botei agora com a gravação original por que jamais conseguiria repetir aquela interpretação.
O samba é predominante nesse novo trabalho, o que marca uma grande diferença em relação aos seus dois primeiros álbuns, que se aproximavam de uma estética mais ou menos rock. Como se deu essa mudança de linguagem?
Jards Macalé - A minha formação é a rádio nacional. E mais a música americana que meu pai ouvia e as coisas que minha mãe cantava. Na verdade, meus dois primeiros discos traziam várias experimentações. Quando comecei, havia Beatles, Rolling Stones e principalmente Hendrix. Era uma época de muita experimentação. Só que meus primeiros amigos, os mais talentosos, aqueles aos quais eu prestava atenção, eram do samba. Eram o Nelson Cavaquinho, o Cyro Monteiro e, mais recentemente, estive no palco com o Moreira da Silva, o rei do breque, o rei do gatilho. Então, pude misturar tudo. Não era só rock. O leque era mais aberto. E quanto mais aberto melhor, só que cada vez mais voltado para a música brasileira, sem o ‘‘p’’ no meio. A sigla MPB esculhambou a música brasileira, que a partir dela ficou fechada.
Sua trajetória é marcada por conflitos com a indústria musical, o que lhe valeu a pecha de maldito. O que você acha desse rótulo?
Jards Macalé - Eu recuso esse rótulo, que acho burro e sem imaginação. Alguns de nós fomos taxados de malditos pelo comportamento anti-ditadura, que demonstrávamos não só através de atitudes e cabelos mas especialmente por meio da própria música. Acontece que quando veio a abertura política, e a ditadura virou ditamole (ela não acabou, só amoleceu), as gravadoras aproveitaram o rótulo para vender transformando o que era um elogio numa pecha e numa maldição.
Você foi uma figura controversa durante a ditadura militar. Consta que você teria ido cumprimentar o general Gollbery do Couto e Silva ...
Jards Macalé - Eu não fui cumprimentá-lo. Fui levar o disco ‘‘Banquete dos Mendigos’’ para ele e para o senador Petrônio Portela. Esse disco tinha sido proibido na auge da ditadura Médici e só foi liberado em 79. É um álbum-duplo gravado ao vivo no MAM, no Rio, com a participação de vários artistas em comemoração aos 25 anos de Declaração dos Direitos Humanos. Esse disco ainda está censurado. Primeiro ele foi proibido pela ditadura militar, depois pela ditadura fonográfica brasileira. Ele está na gravadora BMG, que não liberou até hoje o fonograma.
Que análise você faz de seus companheiros musicais de geração, com quem conviveu na efervescência dos anos 60?
Jards Macalé - Minha geração foi para a p.q.p... Com algumas exceções, a maioria cedeu ao mercado. O que é uma pena, porque tinha muita gente talentosa no meio. O pessoal que comeu lá em casa desaprendeu as boas maneiras.
Além dos discos de carreira, você fez trilhas sonoras, participou de vários songbooks, além de ter atuado em alguns filmes. Atualmente você está envolvido em algum projeto paralelo?
Jards Macalé - O meu grande projeto, que era um sonho de criança, acabei de realizar. Acabo de comprar uma cadeira de balanço. Foi a melhor coisa que consegui adquirir enquanto as bolsas estavam caindo.

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