Na dança da luz
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de setembro de 1997
Ranulfo Pedreiro Londrina 
ReproduçãoDepois do Banho, 1885Enquanto um grupo de bailarinas ensaia alguns passos, comandadas pelo coreógrafo, duas outras se entregam a pequenos prazeres indiscretos: bocejam e se coçam. No extremo do ambiente, dois homens observam, sentados de forma desleixada, ignorando normas de elegância.
O quadro Ensaio de Balé no Palco, produzido em 1873 por Edgar Degas, reúne várias características que marcaram a carreira do pintor e escultor francês. A preocupação com a iluminação e as cores existe - como a claridade que entra pela direita do quadro -, mas o interesse primordial é dirigido ao desenho, às linhas que definem o movimento em meio à espontaneidade.
Além da graciosidade das bailarinas que ensaiam, o pintor destaca as atitudes convencionais das garotas que, após os exercícios, relaxam. Esta preocupação com o movimento e pequenos flagras do cotidiano, associados a um desenho perfeccionista, tornaram Edgar Degas um dos pintores mais importantes do século XIX. Degas morreu há 80 anos, quase cego - há quem diga que a cegueira era total -, só, neurastênico e praticamente esquecido enquanto a Primeira Guerra Mundial perturbava a França, no dia 27 de setembro de 1917.
ReproduçãoBailarina Sentada, com Mão no Pescoço, 1873
Fases A paixão por música, balé, eventos sociais e corridas de cavalo geraram em Degas, filho de um abastado banqueiro, vários ciclos. Ele retratou cenas históricas, familiares, músicos em concerto, bailarinas, jóqueis e cavalos, mulheres tomando banho, paisagens e temas considerados estranhos para a época, como serviçais entediadas passando roupa.
O interesse pelo corpo feminino rendeu-lhe adjetivos como maníaco e doente. Comentava-se em Paris que em seu ateliê havia uma banheira onde as modelos eram obrigadas a encenar momentos íntimos, como ensaboar a perna, secar o pé. Era verdade, mas Degas não se importava com os comentários. Estava preocupado em retratar a mulher em sua intimidade, como se espiasse pela fechadura, como chegou a declarar. O pintor nunca se casou, nem manteve casos amorosos prolongados ou notórios.
Além de se preocupar milimetricamente com a composição dos elementos na tela, Degas inseriu cortes ousados em suas obras, como em Ensaio de Balé, de 1877, em que uma escada circular toma parte da tela, e no outro extremo uma bailarina, em primeiro plano, é cortada ao meio.
Influências O pintor também dava muita importância ao chão, e cultuava, em muitas obras, o horizonte alto, influência das estampas japonesas que admirava. Essa caça ao efêmero, que capta momentos banais com enquadramentos inusitados é comparada às características da fotografia - hobby, aliás, que chegou a praticar com esmero.
Influenciado por Ingres, Degas cursou a Escola de Belas-Artes de Paris; pesquisou mestres como Durer, Rembrandt e Goya; viajou à Itália para apreciar Giotto, Botticelli, Leonardo e Rafael; absorveu conceitos das gravuras do japonês Hokusai e foi amigo de Manet, Cézanne, Renoir e Émille Zola.
Com o escritor, Degas manteve uma rusga quando estourou o caso Dreyfuss - um oficial judeu que foi acusado de espionagem, que causou grande polêmica na França e foi defendido com unhas e dentes por Zola. Descendente de família abastada, Degas só teve espírito revolucionário na pintura. Era um conservador assumido, muitas vezes chamado de reacionário. No caso Dreyfuss, usou argumentos anti-semitas e perdeu muitos amigos, entre eles Zola e Monet.
Com a idade e a vista cansada, Edgar Degas dedicou-se mais à escultura, atividade que desde criança o interessou. Com o bronze e a cera também esculpiu cavalos e bailarinas - uma delas, Bailarina de 14 anos, faz parte do acervo do Masp, que possui uma série completa de esculturas do artista francês.
Edgar Degas era avesso a qualquer tipo de homenagem, e deixou claro que não queria grandes pompas em seu velório. Quando morreu, aos 83 anos, suas vontades foram respeitadas. A única fala realizada em seu enterro seguia suas sugestões: Ele gostava muito de desenho.


