O sociólogo paulista Emir Sader esteve em Londrina na última quarta-feira para debater os rumos da esquerda nesse começo de milênio. Sader é autor de
''Que Brasil é este?'', ''Século XX - Uma Biografia Não-Autorizada'', ''Estado e Política em Marx'' e ''O Anjo Torto - Esquerda e Direita no Brasil'', livros que buscam alternativas para o caos em que se encontra o modelo político-econômico brasileiro. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo em 1965, Sader realizou seu mestrado em Filosofia Política e doutorado em Ciência Política, ambos na USP. Atualmente dirige o Laboratório de Políticas Públicas na UERJ, onde é professor de sociologia. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida à Folha2:

Qual a perspectiva da esquerda brasileira frente à atual conjuntura econômica do País?
Estamos vivendo uma crise geral, econômica, política, social, moral, uma crise de civilização. Estabilizar a moeda não seria uma boa saída, já que todos os índices do governo são ruins. O controle inflacionário, que poderia ser um ponto positivo, também é precaríssimo, pois o objetivo do governo não é crescer, é segurar a moeda. Primeiro deveria se pensar a posição do Brasil no mundo. Estamos em um processo de subordinação financeira absoluta, principalmente aos Estados Unidos. Deveríamos pensar em uma aliança com os países do sul, Índia, China, África do Sul, fazer uma grande aliança para repensar nossas relações comerciais. Se quem assumir o próximo governo não disser: vamos renegociar a dívida e taxar o capital estrangeiro, não há nada a fazer no Brasil.

O Brasil deveria abandonar o sistema capitalista ou seria melhor aperfeiçoá-lo?
O capitalismo está demonstrando que ele é um péssimo distribuidor de recursos. Basta dizer que a África está à míngua e o capitalismo não faz nada por ela. Agora, um dos problemas é o mercado de trabalho. Quem não é altamente qualificado, dança. O horizonte é buscar uma sociedade mais justa, mais humana, e o capitalismo está demonstrando ser mais materialista do que qualquer outro modelo da história da humanidade.

O senhor propõe outro modelo como alternativa, possivelmente o socialismo?
Acho que devemos caminhar numa direção de socialização. O que significa isso? Que a sociedade como um todo decida democraticamente o que vai fazer com os bens materiais e bens culturais. Mas, de imediato, o que está colocado é a nova inserção internacional e reforma democrática do Estado para garantir direitos básicos da cidadania. A discussão imediata não é econômica, e, sim, a reforma e a nova inserção. Não adianta ter proposta econômica se o Estado não tem condições de executá-la. Ele tem de ser reaparelhado.

Qual seria a postura da esquerda em relação à globalização?
Essa globalização que está aí na verdade é uma americanização. Não é uma globalização que eu jogo e você joga, não é um pingue-pongue em que todo mundo contribui. O que ocorre é uma homogeneização do estilo de consumo, monopólio dos meios de comunicação, controle do capital por grandes instituições financeiras internacionais. Para se ter uma idéia, 75% das imagens no mundo são feitas pelos norte-americanos.

Mas não há um lado benéfico da globalização como a internet, o que facilita o acesso ao conhecimento.
A internet marginalmente tem esse papel. Hoje a internet é um instrumento comercial, o que vem de um estilo de vida, vem de um monopólio da informação. O Equador não transmite o que ele acha para os EUA, a CNN trasmite o que acontece no Equador, para ele, para nós, para todo mundo. A internet até que não é tão ruim, mas é unilateral. O Brasil faz seu jornal para a América Latina, para a África? O potencial democratizante da internt é enorme, mas se sabe a porcentagem de uso comercial dela. Temos de realizar uma globalização democrática. E o que seria isso? Primeiro lugar, privilegiar a África, um pedaço da família da humanidade daquele tamanho que está morrendo à míngua. Ela não é importante para o mercado mundial. Ninguém investe lá. E não é culpa deles, pois o que se fez com eles na colonização é um dos maiores crimes da humanidade. Por isso, a globalização não deve se orientar por taxas de lucros, e sim, por necessidades humanas.

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