Na contramão da indústria do disco
DivulgaçãoMarcus Vinícius: A riqueza maior da música brasileira é sua diversidade. Mas a indústria fonográfica aposta em coisas circunstanciaisRanulfo Pedreiro
No universo monolítico da indústria fonográfica, onde o sobe-e-desce de estilos para agradar o mercado desperta maior interesse que a variedade da música brasileira, há um selo que está despontando como alternativa para a pasteurização que assola o setor. Enquanto o mercado se desvia de gêneros considerados autênticos - como o choro, o samba e o forró - para apostar em versões diluídas, o CPC-Umes surge como um foco de resistência e criatividade lançando discos de nomes pouco familiares do grande público.
Além dos CDs, o CPC - Centro Popular de Cultura - está envolvido em várias áreas de produção cultural, incluindo um núcleo de teatro, dirigido por Luiz Carlos Bahia, um centro de produção de cinema e vídeo e uma editora.
Na direção artística do selo vinculado à União Metropolitana de Estudantes Secundaristas de São Paulo - Umes -, está Marcus Vinícius, 50 anos - 30 de carreira. Ele fez parte da geração de nordestinos que se deslocou para o sudeste em busca de consolidação profissional e rendeu nomes como Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner, Belchior e Elba Ramalho, entre outros.
Atualmente mais envolvido com produção, Marcus Vinícius é compositor elogiado pela crítica, autor de discos como Dédalus. Natural de Pernambuco, seu conhecimento de mercado fonográfico envolve o trabalho ao lado de Marcus Pereira, publicitário responsável pelo lançamento do primeiro disco de Cartola, entre outros. Sem meias palavras, Vinícius critica a estrutura do mercado fonográfico brasileiro por dominar todos os setores da produção, incluindo a execução. No outro extremo, sobra o consumidor, esmagado entre a falta de opções e um produto final caro. O produtor conversou com a Folha2 sobre indústria do disco, política cultural do governo Fernando Henrique Cardoso, trabalho do CPC, globalização e futuro da música brasileira.
O trabalho do CPC-Umes privilegia um segmento da música que está relegado ao segundo plano pelo mercado. Por que optar por esse caminho?
A riqueza maior da música brasileira é a sua diversidade. Só em Recife temos três tipos de frevo, além da ciranda e do maracatu. Isto ocorre em vários pontos do Brasil. A indústria fonográfica não dá atenção a esta diversidade que é o nosso melhor elemento, e aposta em coisas circunstanciais.
Esta aposta se resume a interesses financeiros?
O executivo de discos no Brasil é muito mal informado, é imediatista e carente de uma visão macro. E o País acaba se dando ao luxo de jogar essa riqueza fora.
Há uma associação ideológica entre o CPC-Umes e o antigo CPC da UNE?
É uma homenagem ao antigo CPC que também tem origem estudantil. Ninguém aqui está querendo repetir o CPC da UNE, até porque a história só se repete como farsa. Quando fomos chamados para trabalhar no selo já existia essa homenagem, e abordamos a questão popular nacional com uma linguagem de hoje. Não é um revival.
O que mudou na indústria fonográfica brasileira com a tecnologia digital?
A grande indústria não está se aproveitando das facilidades dessa tecnologia. Já a produção independente mudou. Com o CD, a indústria deveria produzir mais e melhor, diversificando e ampliando os pólos de produção. Quem está fazendo isso são os independentes.
A indústria não corre o risco de se tornar um dinossauro com pés de barro?
Hoje os artistas produzem seu disco e levam para a indústria fazer o escoamento, a distribuição. Mas há um novo elemento, o fim do suporte. Você vai acessar o repertório via cabo ou satélite com sinal digital. E você vai decidir se grava no CD ou não. A indústria ainda é vendedora do suporte, do CD, e vai se transformar em uma distribuidora de sinais. Mas ainda vai demorar um pouco. A música brasileira tem um patrimônio que dá dinheiro a produtores estrangeiros. A Bossa Nova está sendo distribuída para o mundo pelo Japão. No Brasil apostam no breganejo, em coisas circunstanciais.
O CD, como produto final para o consumidor, é caro no Brasil?
O CD tem uma carga de impostos alta. Um CD pirata custa até R$ 0,48 para o produtor, mas ele não tem compromisso com nada. No Brasil está um pouco caro, mas estamos entrando na média internacional.
Por que a maioria das rádios opta por seguir os trilhos da grande indústria?
A indústria fonográfica criou um cartel com recursos para vender, colocar na mídia e ainda ter o retorno dos direitos autorais. Ela controla as três pontas, e isso é muito perigoso para o País. Ela ocupa o espaço público da comunicação - as concessões são públicas - para comprar horário como estratégia de marketing. Para os europeus, isso é assustador. Não dá para admitir que o espaço público permita essa estratégia de manipulação. É antidemocrático para o artista em geral e para os produtores independentes.
Com a queda do suporte, a situação vai mudar?
Muda e para pior. A própria indústria vai ter o poder de licenciar o que quiser. A indústria será geradora de sinais e não haverá intermediários. O grande receio é o surgimento do monopólio.
Como a globalização entra neste contexto?
A globalização é inevitável e real. Falar que no mundo globalizado tem que haver competitividade é bonito num país em que todos estão alimentados. Mas existem setores brasileiros que são quase artesanais. Como eles vão concorrer com os japoneses, se já saem perdendo? Essas benesses funcionariam numa sociedade mais uniformizada. É um processo de mão única, de lá para cá. Em música somos de primeiro mundo, mas temos uma dificuldade de mandar nosso produto daqui para lá. Temos que ir ao Japão e aos Estados Unidos para que eles façam a distribuição.
Se os executivos da indústria fonográfica são mal informados, quer dizer que a má qualidade continuará reinando?
A hegemonia do Centro-Sul está sendo rompida. A indústria fonográfica está pecando pela incapacidade de perceber a riqueza musical do País. Quando ela apostou na lambada, foi surpreendida pelo bom pagode que se fazia então no Rio de Janeiro, que veio por fora com Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho e tomou o mercado com todos os investimentos voltados para outro gênero. Depois a indústria apostou no rock e a axé music fez a mesma coisa. No Nordeste os jovens ouvem maracatu e coco, pois a capacidade de empulhação da indústria só vai até um ponto. O Nordeste não está aceitando a mentira do pagode e do breganejo, esses estilos não deixam raízes profundas.
E a política cultural de Fernando Henrique Cardoso, o que está fazendo?
Não temos uma política para a música, para o disco. O Confaz tem um dispositivo que abate parte do ICMS para investimentos em gravação. Isso foi distorcido para pagar também direitos autorais. Só que para pagar direitos autorais não há necessidade de incentivos do governo, pois só se paga direito autoral quando se vende. Então ocorre de pagarem direito autoral com dinheiro público. Esse dinheiro também paga despesas de custeio de algumas gravadoras. É só mandar alguém assinar o recibo de gravação. Mais ainda, até o jabá começou a rodar com dedução do ICMS. Isso tudo precisa ser revisto. Nós temos um grande passado musical que ainda não foi gravado. Entretanto, o ICMS está sendo desviado. É um problemão.
Quais são as próximas novidades que o CPC-Umes colocará nas prateleiras?
Mulheres em Pixinguinha, com três musicistas do Rio de Janeiro que fazem uma leitura feminina de sua obra. Também vamos gravar duas repentistas femininas, Mocinha da Passira e Minervina Ferreira, as melhores do Brasil. Vai sair o volume dois da Música do Cinema Brasileiro, com a trilha de Feliz Ano Velho; um disco de música para computador feito por um francês que mora na Paraíba; e um álbum do grupo Comadre Florzinha, de Pernambuco, com seis percussionistas excelentes que tocam coco, embolada, cavalo marinho e maracatu. Também vamos lançar um disco do Cézar do Acordeom homenageando o acordeonista Luiz Gonzaga e Carmélia Alves fará um tributo a Jackson do Pandeiro.
E você pretende lançar alguma coisa ou anda meio paradão?
Estou meio paradão. Queria lançar este ano um disco que fiz em parceria com o Ruy Guerra e nunca saiu. Estou com 50 anos, comecei na carreira em 1969, tenho bastante repertório. O nosso trabalho no CPC está sendo comentado, e dá a idéia de ser algo difícil, mas não é. No Brasil, por onde você garimpar vai encontrar música boa. Só não vê quem não quer.





