Na caverna de Platão
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de outubro de 1998
Agência Estado/Reuters 
O ganhador do prêmio Nobel de Literatura, o português José Saramago, defendeu ontem sua profunda convicção comunista e criticou o Vaticano e o capitalismo. Não precisei deixar de ser comunista para ganhar o Nobel. Se para ganhá-lo tivesse que renunciar às minhas convicções, então eu renunciaria ao Nobel, afirmou o escritor numa entrevista coletiva.
Aplaudo que para a Academia sueca minhas convicções não tenham sido um impedimento. Mas se o papa estivesse no júri, não me teriam dado o prêmio, acrescentou Saramago, militante do Partido Comunista Português.
O Vaticano, por intermédio do jornal LOsservatore Romano, lamentou que o prêmio tenha sido concedido a um comunista inveterado.
O Vaticano se escandaliza muito facilmente, sobretudo com as pessoas de fora. Que ele cuide de suas orações e deixe a gente em paz. Respeito muito os crentes, mas não tenho nenhum respeito para com a instituição que os representa, disse o escritor.
Saramago escandalizou a alta hierarquia católica com seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, publicado em 1991, que também foi censurado pelo então governo de centro-direita de Portugal.
Depois deste incidente com o executivo de seu país, Saramago decidiu abandonar Portugal e há anos vive na ilha canária de Lanzarote com sua mulher e tradutora, a andaluzia Pilar del Rio.
Entretanto, o escritor afirmou com orgulho que é português e nada mais que um português. Mas por obra do trabalho, minha pátria cresceu tanto que tenho também pátria na Argentina ou no México.
O escritor reconheceu os muitos erros e crimes do comunismo, mas afirmou que como um comunista coerente continua acreditando que se pode viver neste planeta de forma digna... E não sei se o comunismo pode conseguí-lo, mas desde já sei que o capitalismo não.
Não tem sentido que os Estados Unidos enviem um foguete a Marte enquanto milhões de pessoas morrem de fome. É mais fácil chegar a Marte do que a nossos semelhantes, disse.
Saramago, 76 anos, confessou estar perplexo por ser o novo Nobel. Dizem a você que ganhou o Nobel, mas você não sabe o que estão dizendo porque precisam passar uns dias até que isto penetre em sua consciência, afirmou o autor de Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Homens.
E Saramago, oriundo de uma humilde família de camponeses analfabetos, confessou não saber o que o fez merecedor de tão prestigiado prêmio.
Não tenho resposta para isso, apenas sei que o que fiz o fiz com a consciência de que tinha a responsabilidade de fazê-lo, com a consciência de que o que se tratava era que um ser humano pode expressar-se e dizer quem é, afirmou. Preciso me perguntar que diabo faço aqui, na vida em sociedade, na história, acrescentou. Atualmente, apesar de agora ter de interromper o trabalho por um tempo para cumprir os compromissos do Nobel, ele está escrevendo um novo romance, A Caverna, sobre o mito platônico de uns homens confinados em uma caverna onde vêem umas sombras que confundem com a realidade.
Não lhes parece que nunca na história da humanidade estivemos tanto na caverna de Platão quanto agora?, perguntou o escritor.


