O ganhador do prêmio Nobel de Literatura, o português José Saramago, defendeu ontem sua profunda convicção comunista e criticou o Vaticano e o capitalismo. ‘‘Não precisei deixar de ser comunista para ganhar o Nobel. Se para ganhá-lo tivesse que renunciar às minhas convicções, então eu renunciaria ao Nobel’’, afirmou o escritor numa entrevista coletiva.
‘‘Aplaudo que para a Academia sueca minhas convicções não tenham sido um impedimento. Mas se o papa estivesse no júri, não me teriam dado o prêmio’’, acrescentou Saramago, militante do Partido Comunista Português.
O Vaticano, por intermédio do jornal L’Osservatore Romano, lamentou que o prêmio tenha sido concedido a um ‘‘comunista inveterado’’.
‘‘O Vaticano se escandaliza muito facilmente, sobretudo com as pessoas de fora. Que ele cuide de suas orações e deixe a gente em paz. Respeito muito os crentes, mas não tenho nenhum respeito para com a instituição que os representa’’, disse o escritor.
Saramago escandalizou a alta hierarquia católica com seu livro ‘‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’’, publicado em 1991, que também foi censurado pelo então governo de centro-direita de Portugal.
Depois deste incidente com o executivo de seu país, Saramago decidiu abandonar Portugal e há anos vive na ilha canária de Lanzarote com sua mulher e tradutora, a andaluzia Pilar del Rio.
Entretanto, o escritor afirmou com orgulho que é ‘‘português e nada mais que um português. Mas por obra do trabalho, minha pátria cresceu tanto que tenho também pátria na Argentina ou no México’’.
O escritor reconheceu os muitos ‘‘erros e crimes do comunismo’’, mas afirmou que como um ‘‘comunista coerente’’ continua acreditando que ‘‘se pode viver neste planeta de forma digna... E não sei se o comunismo pode conseguí-lo, mas desde já sei que o capitalismo não’’.
‘‘Não tem sentido que os Estados Unidos enviem um foguete a Marte enquanto milhões de pessoas morrem de fome. É mais fácil chegar a Marte do que a nossos semelhantes’’, disse.
Saramago, 76 anos, confessou estar perplexo por ser o novo Nobel. ‘‘Dizem a você que ganhou o Nobel, mas você não sabe o que estão dizendo porque precisam passar uns dias até que isto penetre em sua consciência’’, afirmou o autor de ‘‘Ensaio sobre a Cegueira’’ e ‘‘Todos os Homens’’.
E Saramago, oriundo de uma humilde família de camponeses analfabetos, confessou não saber o que o fez merecedor de tão prestigiado prêmio.
‘‘Não tenho resposta para isso, apenas sei que o que fiz o fiz com a consciência de que tinha a responsabilidade de fazê-lo, com a consciência de que o que se tratava era que um ser humano pode expressar-se e dizer quem 钒, afirmou. ‘‘Preciso me perguntar que diabo faço aqui, na vida em sociedade, na história’’, acrescentou. Atualmente, apesar de agora ter de interromper o trabalho por um tempo para cumprir os compromissos do Nobel, ele está escrevendo um novo romance, ‘‘A Caverna’’, sobre o mito platônico de uns homens confinados em uma caverna onde vêem umas sombras que confundem com a realidade.
‘‘Não lhes parece que nunca na história da humanidade estivemos tanto na caverna de Platão quanto agora?’’, perguntou o escritor.

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