Gabriel Braga Nunes foge do lugar-comum. Normalmente, os atores adotam um discurso mais defensivo ao protagonizarem uma novela. Já Gabriel se mostra seguro e confiante. No lugar dos batidos discursos de responsabilidade grande ou intenso laboratório, o ator prefere mergulhar no texto e na rotina da novela para construir, aos poucos, seu personagem. No caso, o rústico Carlos de ''Amor Eterno Amor''.
Na trama de Elizabeth Jhin, ele vive o filho perdido de Verbena - de Ana Lúcia Torre - que possui o dom de acalmar os animais. E garante que não se preocupou com qualquer tipo de preparação para suas cenas. ''No lugar de ficar em casa lendo e pesquisando como seria um domador, preferi chegar no Pará para gravar e fazer isso. Quando se ganha um papel como esse, ou você confia na equipe ou não funciona'', argumenta Gabriel.

Entre ''Insensato Coração'' e ''Amor Eterno Amor'' você ficou muito pouco tempo de férias. O que o fez aceitar logo fazer outra novela?
O que mais me chamou atenção nesse convite foi sair do vilão e fazer o herói, um contraste forte em tão curto espaço de tempo. São personagens diametralmente opostos. Nunca interpretei esse tipo de pele queimada, chapéu, meio caubói sentado no cavalo e galopando. Além disso, a previsão é que a gente não ultrapasse 150 capítulos. E sempre admirei o Papinha (Rogério Gomes, diretor). Tinha vontade de trabalhar com ele, fiquei impressionado com o sucesso de ''Escrito nas Estrelas'', última obra da Elizabeth Jhin (autora) e também desejava dividir cena com a Andréia Horta, que já estava escalada. Ela fez ''Alice'', na HBO, junto com a minha mãe (a atriz Regina Braga) e fiquei extremamente fascinado com seu talento.
O Carlos tem uma ligação grande com os animais, fazendo com que você grave muito com eles. Como tem sido essa experiência?
Até onde eu recebi no texto, o Carlos tem uma facilidade no trato com os bichos. E é claro que quando a gente está gravando, os animais não são dirigidos tão facilmente quanto a gente gostaria que fossem. Passamos por alguns imprevistos, é normal. E são cenas mais demoradas, sem dúvida. Não é fácil você falar para uma onça ''para aqui'' ou ''para ali''. Mas não tenho medo. Decidi confiar. Até porque fazer um personagem como esse e não se entregar à equipe não seria possível. Já aconteceu de tomar coice e cair do cavalo, mas nada grave ou sério. Inclusive diversos desses pequenos acidentes foram incorporados à novela, já que fazem parte da rotina de uma fazenda.
Vocês gravaram muitas externas no Pará...
Sim. E devo dizer que fiquei absolutamente deslumbrado com tudo que vi ali. Gostei demais da Ilha de Marajó. No último dia, me agarrei a uma árvore e disse ''ninguém me tira daqui'' (risos). É tão bonito, uma mistura diferente de floresta amazônica e praia nordestina. Fomos ainda a Alter do Chão, que tem um povo extremamente doce e educado. Eles têm uma espécie de ingenuidade ou pureza que é bem cativante.
Além do trato com os animais, o Carlos é também o filho perdido de Verbena, personagem de Ana Lúcia Torre. Você chegou a se inspirar em alguém ou em uma história parecida?
Não, eu tenho um pensamento que é o seguinte: novela a gente aprende fazendo. A gente descobre o personagem com o passar dos capítulos. É contracenando com a mãe, com a mulher que ele ama, com o inimigo, prestando atenção nos cenários, na relação com os animais, são nesses detalhes que o personagem vai aparecendo. Sempre tendo a achar que aquilo que você prepara ou faz em casa e leva para um set acaba te afastando do personagem de novela.
A novela fala de espiritismo e você é um ateu. Como funciona essa relação na sua cabeça?
Aposto que essa vai ser uma história bonita e envolvente. E que vai me trazer os elementos necessários para eu fazer de forma crível. Sou ateu, mas acredito muito na capacidade do texto da Elizabeth Jhin. Acho que tem ingredientes muito fortes para envolver o telespectador brasileiro, que tem uma inclinação grande à fé.
Nos últimos anos, você vem praticamente emendando uma novela em outra. O que aconteceu para que se rendesse à televisão?
É curioso isso porque, realmente, o que me levou a escolher a profissão de ator foi o teatro. E exclusivamente ele! Nem cogitava fazer tevê. Ao longo dos anos, resolvi experimentá-la e começamos a viver uma história de cada vez mais envolvimento. Hoje em dia, é o meu veículo favorito. Prefiro fazer novelas a teatro ou cinema. Isso tem a ver com a vida dinâmica que uma novela nos proporciona. Eu, como um bom aquariano, me incomodava muito com a repetição, a rotina do palco. O dinamismo de gravar coisas diferentes a cada dia foi me contagiando. E também de poder fazer viagens tão diferentes, como quando fui à Sicília para ''Poder Paralelo'' e, agora, no Pará. É, sem dúvida, o que mais gosto de fazer.
Foi isso que o fez assinar um contrato longo com a Globo? Afinal, você sempre disse que preferia ficar livre para tomar suas próprias decisões na carreira.
Pela primeira vez na minha história eu faço um contrato que não seja por obra, mas por tempo. E isso tem a ver sim. Bem, sempre prezei muito a minha liberdade e meu poder de decisão. E sempre achei complicado ficar atrelado por anos a uma empresa sem saber exatamente o que iria fazer. Preferia dar um passo de cada vez. Nesse momento da minha vida, quando acabou ''Insensato Coração'', enxerguei na relação com a Globo um bom diálogo e capacidade de realização de trabalhos de qualidade. Me vi respeitado e valorizado, senti que tenho voz ativa e achei que era um momento bonito com a empresa. E que merecia ser coroado com um belo contrato, exatamente como o que fiz.

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