Nada como um bordão para tornar um personagem da teledramaturgia marcante. Agora, é comum ouvir os lamentos de Félix, vilão de Mateus Solano em "Amor à Vida", traduzidos nas frases "salguei a santa ceia" e "pelas contas do rosário", além dos exageros de Meg, interpretada por Luiza Tomé em "Dona Xepa", com seu tão repetido "adoro". Mas papéis bem mais antigos permaneceram na memória dos telespectadores com o passar dos anos muito por conta de seus bordões. Como Sinhozinho Malta, de Lima Duarte, em Roque Santeiro, com "'tô' certo ou 'tô' errado", e Dona Armênia, interpretada por Aracy Balabanian em "Rainha da Sucata", que fez sucesso com a frase "na 'chon'".
Além de popularizar os personagens, os bordões são uma ferramenta, de um modo geral, que estabelece uma identificação com o público. Mateus Solano tem percebido isso em sua rotina. "As pessoas ficam envergonhadas e não sabem como abordar o artista. O bordão é um facilitador porque você já chega com uma frase engraçada do personagem. O Walcyr sabe que acaba criando uma empatia com o público", reflete Mateus.
De fato, o autor de "Amor à Vida" tem o hábito de inserir bordões em suas novelas. Mais recentemente, em "Gabriela", a frase "Jesus, Maria, José", dita pela personagem de Laura Cardoso, foi bastante explorada no texto. "O bordão tem força e combina com o tipo de humor que eu faço em minhas novelas", explica Walcyr, que afirma ser impossível prever quando um bordão conquistará o público. "Para que tudo saia do jeito que pensei, o ator precisa entender a intenção daquele bordão, que pode ir além do riso e servir também para alfinetar e criticar", completa.
Às vezes, a frase que funciona como marca registrada de um personagem periférico acaba lhe rendendo mais dimensão em um folhetim. E o ator que o encarna se torna lembrado por conta do papel por muito tempo. Foi o que aconteceu com Carla Dias, que deu vida a Khadija, em "O Clone", exibida pela Globo em 2001. "As pessoas ainda falam dos bordões e pedem para eu fazer o sotaque", revela, referindo-se às frases "eu quero ter um marido muito rico, que me dê muito ouro" e "inshalá".
Aliás, Gloria Perez, que assinou "O Clone", é outra autora que gosta de colocar bordões em suas tramas. "Alguns surgem de forma proposital e são fruto de uma pesquisa extensa. Outros, do amadurecimento do meu texto com as informações que o ator agrega ao personagem", esclarece.
Seguindo a linha de trazer informações para o papel que interpreta, Luiza Tomé acabou incorporando o "adoro" para o texto da "perua" Meg, em "Dona Xepa", da Record. "Eu ainda nem fazia a novela, estava batendo o texto com um amigo gay e ele falou o 'adoro'. Peguei para a personagem. É legal fazer papéis que você descobre no seu dia a dia", ressalta a atriz.
Já Silvio de Abreu não se recorda de ter aproveitado algum bordão no texto de seus folhetins que tenha sido sugestão de ator. O exemplo clássico "na chon", dito por Dona Armênia em "Rainha da Sucata", inclusive, surgiu naturalmente. "Veio da maneira como a Aracy Balabanian pronunciava as palavras no seu sotaque armênio. Não foi nada planejado", garante ele, que também acredita que os intérpretes têm uma função crucial para o sucesso de um bordão. "Só será eficiente se o ator ou atriz souber utilizá-lo com talento. Para cair na boca do povo, a receita é simples: depois da aceitação pública, a repetição faz o resto", indica Silvio.

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