Na boca do povo
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de março de 2012
Nelson Sato <br> <br> Reportagem Local 
É raro passar um dia sem ouvir uma daquelas frases ou expressões que caíram na boca do povo depois de virar bordão na televisão. Os exemplos são numerosos e reúnem pérolas de fontes diversas - de personagens de novelas e programas de humor a apresentadores de telejornais, narradores esportivos e até peças publicitárias.
Há quem remonte à era de ouro do circo e do rádio para pesquisar as origens do fenômeno que, hoje em dia, foi amplificado pela difusão instantânea nas redes sociais. Quem não se lembra do ''ninguém merece'', popularizado a partir de um comercial? Quem nunca ouviu o ''É ruim, hein! ou o ''Fala sério'', repetidos à exaustão no ''Casseta e Planeta''? Ou ainda ''Isso é uma vergonha!'', exclamado pelo apresentador Boris Casoy em seu antigo telejornal do SBT?
''O Boris Casoy criou esse bordão por acaso'', lembra Flora Neves, professora de telejornalismo e da disciplina Televisão, História e Memória no programa de Mestrado do curso de Comunicação Social da UEL. ''Foi numa ocasião em que ele deu uma notícia sobre um hospital superlotado no Nordeste. As pessoas gostaram de sua manifestação de indignação e ligaram para a emissora comungando de sua opinião. Assim, ele manteve a frase.''
A docente atribui a massificação das frases lançadas pela televisão à presença central dessa mídia na vida dos brasileiros. ''Segundo o IBGE, 97% dos domicílios têm aparelhos de TV, mais que geladeira. Então as pessoas assistem muito à televisão e reproduzem o bordão sem ao menos lembrar qual personagem o inseriu'', diz.
Segundo ela, até grupos sociais considerados menos consumidores de televisão assimilam tais expressões. ''Muitas vezes, os universitários não repetem frases de novelas, mas de programas com os quais se identificam, como o CQC, por exemplo'', assinala. Embora admita que já tenha reproduzido frases de personagens televisivos, a professora diz que ''agora censura os estudantes e filhos adolescentes que usam'': ''Digo que eles devem ser mais criativos e que os bordões podem ser armas de controle de audiência da TV''.
Dia de rock, bebê
Os bordões, no entanto, continuam cativando o grande público - especialmente através de novelas, a principal fornecedora de termos incorporados ao linguajar cotidiano dos brasileiros. Isso porque tal repertório é renovado a cada nova trama. Atualmente, não há concorrentes para a vilã Tereza Cristina (Christiane Torloni) e seu fiel escudeiro Crô (Marcelo Serrado), campeões de bordões no folhetim ''Fina Estampa''.
O ''bebê'', da perua, virou sucesso nas ruas. ''Hoje é dia de rock, bebê'', declarou Torloni ao responder a uma pergunta da repórter Dani Monteiro, do canal Multishow, durante a cobertura do festival ''Rock in Rio'', em setembro do ano passado. A frase ecoa até hoje. Mas a personagem criada por Aguinaldo Silva para a trama das 21h na Globo tem inúmeros antecessores, que se imortalizaram na telinha fixando-se na cabeça da audiência graças a frases repetidas ao longo dos capítulos.
O ator Lima Duarte ficou marcado pela expressão ''Tô certo ou tô errado?'', que seu personagem Sinhozinho Malta usava balançando braceletes e cordões de ouro na novela ''Roque Santeiro''.
A atriz Mara Manzan ficou colada à frase ''Cada mergulho é um flash'', recorrente na boca da personagem Odete, que interpretou em ''O Clone''. Nesta mesma novela, Solange Couto ganhou popularidade como Dona Jura, aquela que vivia exclamando ''Não é brinquedo, não'', expressão mais tarde transformada em música por um grupo de pagode.
Camila Pitanga também fez história ao abusar da expressão ''catiguria'' enquanto esteve na pele da prostituta Bebel em ''Paraíso Tropical''. Mirian Pires cunhou um bordão inesquecível em ''Tieta''. Lembram de seu famoso ''mistério'', eternizado por sua Dona Milú? Regina Duarte foi outra que conquistou o público com a frase ''Me poupe, Salgadinho!'', usada pela personagem Lucineide em ''Explode Coração''.
O mesmo se pode dizer de Drica Moraes com ''Sou chique, benhê'', proferida por sua personagem Márcia em ''Chocolate com Pimenta''. O ator Luís Carlos Tourinho durante muito tempo foi parado por fãs, que lhe dirigiam carinhosamente a expressão ''Abalou Bangu!'', cunhado pelo personagem Edilberto na novela ''Suave Veneno''. Antonio Fagundes também contribuiu para ampliar o acervo de bordões televisivos com seu ''Muita calma nessa hora!'', usado por seu Juvenal Antena em ''Duas Caras''.
As adolescentes que assistiam à novela ''Malhação'', em meados da década de 90, com certeza guardaram na memória a frase que o professor de judô Dado - protagonizado por Cláudio Heinrich - repetiu ao longo de três temporadas da trama: ''Bonito isso, né? Eu li num livro!''. Há casos de bordões que nascem nas ruas e só depois são levados para a TV.
O ator Eri Johnson já revelou em entrevistas que tem o hábito de caçar palavras e frases na periferia carioca para ajudar na criação do vocabulário de seus personagens. Foi assim quando interpretou o coreógrafo Lulu, em ''Barriga de Aluguel'', que pronunciava um lacônico ''fui'' para se safar de situações constrangedoras.
Pela internet
Como se vê, a lista é interminável - e, provavelmente, muitos leitores já terão lembrado de outras frases que ''pegaram'' no imaginário popular. A internet reproduz fenômeno semelhante com seus virais, tornando-se também uma usina de bordões. A cada semana ou mês, um novo meme se dissemina pelos usuários nas redes socais.
Pode ser ''Menos Luiza, que está no Canadá'' ou ''as mina pira'' ou ainda ''Houve boatos que eu ainda estava na pior, se isso é estar na pior, porrãn!''. Não deixa de ser divertido.



