Novelas são obras totalmente ficcionais. Porém, em alguns casos, a forte ligação entre o público e a trama ultrapassa a fronteira entre imaginação e realidade. Nessa confusão, onde a audiência está na ordem do dia, casos peculiares vêm à tona: atores sofrem represálias pela conduta de seus personagens, a mídia cria factoides e trata personagens como se fossem pessoas reais e autores precisam lidar com a pressão para defender a sinopse original de suas obras. ''Parte da imprensa adora fantasiar e criar soluções mirabolantes sobre a vida de pessoas que nem existem. Sempre disse que minha novela só teria um personagem gay'', aponta Aguinaldo Silva, autor de ''Fina Estampa''.
O discurso do autor refere-se ao possível romance entre a médica Daniele, de Renata Sorrah, e Esther, de Julia Lemmertz. Desde a estreia do folhetim, foi dado como certo em alguns veículos o envolvimento amoroso entre as duas, fato desmentido muitas vezes por Aguinaldo. ''Não basta só inventar coisas a respeito dos atores, os personagens também entram na roda. Não quis dar meus palpites sobre essa polêmica, mas agora todos podem ver que a informação não procede'', ressalta Julia.
Para Ricardo Linhares, parceiro de Gilberto Braga em ''Insensato Coração'', fofocas com personagens nascem da necessidade de alguns setores da mídia em antecipar a história. ''Quem sabe da novela são os autores. A força de algumas tramas vende notícias curiosas. Sejam elas reais ou não'', analisa o autor, que durante a última novela, entre alguns casos, teve de desmentir os boatos de que a masculinizada Aracy, de Cristiana Oliveira, era lésbica.
Não é de hoje que personagens têm suas tramas publicadas com certo tom de realidade. Em ''Bandeira 2'', de 1971, o bicheiro Tucão, de Paulo Gracindo, era um sucesso de público. No entanto, em plena ditadura militar, a novela sofreu com a censura e teve de matar o personagem. Um jornal carioca que tinha acesso ao roteiro de gravação do folhetim deu a morte de Tucão como manchete de capa, os leitores entenderam que o ator Paulo Gracindo tivesse falecido e a matéria levou uma multidão ao cemitério da Penha - bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro -, locação para a cena do enterro do personagem. ''Foi uma comoção. Naquela época, o envolvimento do público com a história da novela era muito intenso. Foi muito louco até para o elenco, parecia que aquilo era real'', conta Elizangela, intérprete de Thaís, filha de Tucão.
A seriedade com que certos personagens são encarados pelo público também já levou atores a situações incômodas. Desde a agressão física sofrida por André Gonçalves na época de ''A Próxima Vítima'', de 1995, onde ele dava vida ao homossexual Sandrinho, à alcunha de violento associada a Dan Stulbach por conta das maldades do Marcos, de ''Mulheres Apaixonadas'', de 2003. ''Na época, eu até evitava ir a lugares com muita gente. A novela fazia sucesso e o personagem era muito odiado. Uma senhora me apertou tanto que meu braço ficou roxo'', relembra Dan, sobre o personagem que perseguia e espancava a ex-esposa com uma raquete de tênis.
A repercussão dos folhetins é o melhor termômetro sobre o desempenho de uma novela. E mesmo que sutis ou não assumidas, quando uma história não vai bem no ibope e nas pesquisas com telespectadores, mudanças na trama ou nas características de alguns personagens são sempre providenciadas. Em contrapartida, alguns autores desistem do projeto inicial de suas obras para afagar o público que o prestigia. ''O sucesso pode fazer com que a novela tenha um final mais ao gosto do freguês'', acredita Maria Adelaide Amaral, que no ''remake'' de ''Anjo Mau'', de 1997, depois de inúmeras cartas e ligações do público para a Central Globo de Atendimento, acabou poupando a vida de Nice, de Glória Pires, que, na primeira versão do folhetim, morre durante o parto.

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