A comédia sempre pareceu uma zona de conforto para Betty Lago. Tanto que a atriz coleciona papéis de sucesso no gênero. Mas, exceto pelo humor, poucas características aproximaram suas personagens do grande público. Agora, na pele da despachada empregada doméstica Marizete, de ''Vidas em Jogo'', da Record, a atriz experimenta, pela primeira vez, um tipo completamente distante do requinte e elegância que a bem trilhada carreira internacional de modelo deixou em seu currículo.
''Acho que foi esse o grande barato de assinar com a Record: experimentar um papel que já é popular no texto. Dizer que eu só posso interpretar com traços de classe é a mesma coisa, na minha opinião, que falar que pobre não pode ter traços finos'', critica. Seu contrato de cinco anos com a emissora não impede que a atriz continue investindo também na função de apresentadora. Tanto que ela concilia as gravações da novela de Cristianne Fridman com o programa ''Pirei'', em sua primeira temporada no GNT. ''Sei que vou trabalhar feito louca, mas feliz. Para mim, isso é o mais importante'', valoriza.
Em 'Vidas em Jogo', você interpreta uma empregada doméstica. Sentia falta de sair da imagem de elegante que carregava desde a época de modelo?
Betty Lago Sentia, sim, mas não ficava batalhando por isso. Até pedi para fazer testes em alguns personagens, mas falavam que não tinha nada a ver. Diziam que não passaria credibilidade. Ora, é claro que tem credibilidade, só depende de quem está fazendo! Achei interessante quando o Avec (Alexandre Avancini, diretor de ''Vidas em Jogo'') me chamou falando que a Cristianne Fridman disse que eu poderia fazer esse papel.
Você chega a buscar inspiração em casa, com sua própria empregada?
B.L Olha, a minha empregada já tem atitude de quem ganhou na loteria! E a gente está junto há uns 30 anos, a gente viaja, faz tudo junto! Depois de tanto tempo, já é uma grande amiga minha. Mas, às vezes, eu leio o texto e pergunto como ela falaria determinadas frases ou expressões. E ela, claro, reage sempre com um tom abusadíssimo. Então, não chega a ser uma inspiração, mas uma espécie de consultoria.
E onde você buscou essa inspiração?
B.L. A gente sempre vê essas empregadas de uniforme, passeando pelas ruas. E tenho uma certa implicância com essa 'coisa' de uniforme. Você vê aquelas babás de manhã, passando um calor infernal... Eu sei que é cada um fazendo o seu trabalho, mas não precisa tanto, não é? Você vê mais isso no Brasil do que em qualquer outro país desenvolvido. Essa 'pseudopompa' de ''ah, eu tenho de servir com as bandejas de prata'', tudo engomadinho demais, com ''sim, senhora'' e ''não, senhora'' é um comportamento subserviente que é a cara da nossa cultura. Então, minha inspiração é na gente mesmo.
Você andava atuando cada vez menos. Era proposital?
B.L. Não vejo dessa forma. Eu fiz ''Cinquentinha'' e o Miguel Falabella chegou a me chamar para fazer ''A Vida Alheia''. Mas o Aguinaldo ia fazer uma segunda temporada de ''Cinquentinha'' e existe aquela política da Globo - que acho errada - de colocar reserva. Eu não estava contratada e não pude trabalhar com o Miguel. Conclusão: ''Cinquentinha'' não rolou e a Marília Pêra interpretou a minha personagem. Isso dá uma desanimada, não vou negar.
Você ficou decepcionada?
B.L. Fiquei chateada porque queria fazer ''A Vida Alheia''. Aí, pintou o convite para a nova novela do Miguel, que vai entrar no ar depois de ''Morde & Assopra'', e para o seriado dele, que talvez entre em produção depois disso. Já estava certo. Fiquei esperando a resolução. Nesse meio tempo, saí do ''Saia Justa'' e fui conversar com o GNT para fazer o ''Pirei''.
Como o Miguel Falabella reagiu quando soube que você assinaria com a Record?
B.L. Conversei com ele e, como eu já esperava, rolou aquele choque inicial porque ele já estava escrevendo e tinha avançado bastante nesses projetos. Falei sobre o personagem que tinham me oferecido e que queria fazer essa novela. Inclusive antes de assinar com a Record. Acho que a gente tem de ter essa leveza, precisa ir ali e fazer um pouquinho, vir aqui e fazer um pouquinho... O Miguel parou, me olhou e disse: ''Tá bom. Vai lá e vê se tem um lugar para mim também'' (risos).
Sua última novela foi em 2007, ''Pé na Jaca''. Estava evitando esse formato?
B.L. Quando você avança na carreira, é mais interessante se arriscar em outras coisas e não ficar emendando uma novela na outra. Não tenho nada contra esse gênero, mas não vejo que, como atriz, eu precise estar sempre no ar. Existe um pouco essa ideia no Brasil de que se você não está em novela - principalmente da Globo - não está fazendo nada. E eu estou com vontade é de viver! Eu, hein! Quero viajar, estudar, ler, me aprimorar...
Mas o que a fez assinar por cinco anos com a Record?
B.L. Foi uma decisão que me deixou feliz. Eu poderia ter saído do Brasil, poderia me voltar mais para o cinema, mas eu assinei com a Record. Para mim, é uma relação profissional e a gente tem de buscar oportunidades boas. Foi o que fiz, agarrei uma que chegou. É mais um lugar para a gente trabalhar, uma empresa que me ofereceu um papel interessante, com pessoas e salário legais, não tive motivos para recusar. As pessoas comentam que eu deixei a Globo. Eu nunca tinha trabalhado na Record, mas também não estava contratada na Globo. Criam uma rivalidade que, na verdade, não existe.
O compromisso de cinco anos não seria longo demais para alguém que preza sua liberdade artística?
B.L. Você acha cinco anos muito tempo? Olha, acho que tudo é negociável. Se me chamarem para um papel, vou conversar e, juntos, vamos analisar se tem mesmo a ver comigo. É claro que se você está contratado, fica à disposição, não discuto isso. Mas as pessoas aqui são inteligentes para colocarem você em projetos que tenham a ver com o que é bacana para você e sua carreira. Essa novela, por exemplo, deve durar um ano. Depois, vão sobrar só quatro anos. Não é tanto.
Você teve alguma dificuldade de adaptação à Record?
B.L. Nenhuma. Eu vim sem qualquer expectativa. É tão raro isso, mas cheguei de peito aberto. Algumas pessoas falaram: ''pensa bem porque você está deixando a sua turminha''. Mas eu não sou criança, não tenho turminha. E o texto da Cristianne é bem dinâmico, se parece bastante com o do Carlos Lombardi, com quem trabalhei bastante na Globo. Tem muita ação, movimento, é incrível. E o Avancini é craque em cenas de ação. Já fazia muitas em ''Anos Rebeldes'' e isso foi em 1992!
''Vidas em Jogo'' - Record - Segunda a sexta, às 22h15.

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