NA BOCA DO POVO
MEMÓRIA NA BOCA DO POVO As marchinhas de Carnaval foram muito populares ao retratar o cotidiano com irreverência e alegria Guilherme GluckBloco de jovens foliãs no início do século: o Carnaval ainda era uma festa popularJosé SuassunaPara Cesar Fonseca os interesses financeiros embalam a folia de hoje Arquivo Folha Durante décadas, o Carnaval foi a grande festa popular brasileira Arquivo Folha O povo se fantasiava espontaneamente para brincar na rua Zeca Corrêa Leite De Curitiba Durante algumas décadas o Carnaval foi a grande festa do povo, especialmente o de rua, quando todas as classes se nivelavam. O cenário criado foi propício para o surgimento das marchinhas, que eram a marcha tradicional, porém num ritmo mais alegre e acelerado. Fruto da irreverência, as marchinhas vieram com gás suficiente para escancarar o ridículo da sociedade, costumes e comportamento, as injustiças, o lado podre dos poderes sem jamais perder o bom humor. Doces vinganças risonhas. Da década de 30 até a de 50 Momo imperou soberano, mas o que sobrou disso não chega a ser nem ao menos o arremedo da grande festa. Nosso Carnaval praticamente acabou, chegamos a uma grande Quarta-Feira de Cinzas, analisa Cesar Fonseca, colecionador, pesquisador musical e diretor do Canal da Música, em Curitiba. Hoje, com os interesses financeiros em cima de tudo, vivemos um Carnaval diferente. Sentados, vemos o que passa pela televisão. Assistimos a uma festa que já não é mais nossa. E também não é mais Carnaval; é um show, um espetáculo, afirma. A interação da festa com o povo mistura-se com a história das marchinhas. Elas caminham lado a lado e se confundem, tamanha a proximidade, apesar de que já nos anos 40 os poderosos de plantão davam tratos à bola sobre como fazer para cortar as asas dessas composições que gozavam de tudo que estivesse à sua volta. Até mesmo o ditador Getúlio Vargas foi ironizado em Coroa de Lata: A coroa do rei/ não é de ouro nem de prata/ eu também já usei/ e sei que ela é de lata. Revelação maior sobre a falsa figura do rei, impossível. A marchinha é eminentemente carnavalesca, comenta Fonseca. Porém, quando percebem que o seu potencial vai muito além da diversão, os músicos e poetas invadem outras searas, compondo desde jingles a hinos de clubes de futebol. Lamartine Babo, mestre nessa arte, assina quase todos os hinos. Mesmo com seu passado crítico, no final dos 50 a marchinha está nas campanhas políticas. Jânio Quadros valeu-se de uma que se transformou num clássico. Sua figura de moralista, que tinha como símbolo a vassoura para varrer toda a sujeira que emporcalhava o País, foi embalada por uma música lembrada ainda hoje: Varre, varre vassourinha/ varre, varre a bandalheira/ o povo está cansado/ de viver dessa maneira. Veio a eleição, a vitória, a renúncia; ele morreu mas o jingle de vez em quando é tocado no rádio e televisão, como se desenhasse com mais fidelidade essa época. Mesmo com milhares de correligionários, ainda assim Jânio viu muitos votos irem para o hipopótamo Cacareco, do zoológico do Rio de Janeiro. O bicho ficara nacionalmente conhecido com uma marchinha que o homenageou no ano anterior às eleições, lembra Cesar Fonseca. A letra é caótica, não diz muita coisa, considera. Eu encontrei o cacareco/ bebendo chopp, com salsinha e rabanada/ e para o bloco da vitória ele gritava:/ aqui Gerarda, aqui Gerarda. Nem sempre os versos tinham cunho documental, como uma crônica do momento. Algumas vezes eram surrealistas como a criação de Príncipe Pretinho, que fez uma brincadeira tomando por tema a célebre ária de O Guarani, de Carlos Gomes. Gravada em julho de 1937 para o Carnaval de 38, com Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco, é um amontoado de bobagens repetitivas: Cecy beijou Pery/ e Pery beijou Cecy. A sinfonia transformada em ritmo carnavalesco talvez tenha feito o maestro contar até dez no caixão. Ao longo da história pontilham marchinhas que ficaram para sempre no gosto do brasileiro. Impossível não se deixar envolver pelo ritmo de O Teu Cabelo Não Nega, que Lamartine Babo e Irmãos Valença compuseram para o Carnaval de 32; de Allah-la-ô, de Nássara e Haroldo Lobo, sucesso de Carlos Galhardo, em 41; Passarinho do Relógio, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, sucesso de Aracy de Almeida em 1940, Nós, os Carecas, de Roberto Roberti e Arlindo Marques Jr., que os Anjos do Inferno defenderam no Carnaval de 42. Os oportunistas que proliferam no funcionalismo público foram cunhados em Maria Candelária, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, lançado em outubro de 51. A coitada da Maria à uma vai ao dentista/ às duas vai ao café/ às três vai à modista/ às quatro assina o ponto e dá no pé./ Que grande vigarista que ela é. Em 1951 o Brasil inteiro cantou com Emilinha Borba a marchinha Tomara que Chova, de Paquito e Romeu Gentil. A falta dágua no Rio (que motivou outra pérola: Rio de Janeiro/ cidade que me seduz/ de dia falta água/ de noite falta luz) penaliza a personagem da música: A minha grande mágoa/ é lá em casa não ter água/ e eu preciso me lavar. A dupla Alvarenga e Ranchinho, que vivia seus tempos de glória, não perdeu a oportunidade de brincar com os versos finais: Trabalho não me cansa/ o que cansa é pensar/ que lá em casa não tem água/ nem pra cozinhar. Os dois divertiam as platéias movidos a malícia: Trabalho não me cansa/ o que cansa pra xuxu/ é lá em casa não ter água/ nem pra lavar o lulu. Quando a moda revolucionou a cabeça das mulheres, na mudança dos anos 50 para os 60, liberando-as de uma espécie de espartilho mais moderno (a cinturita), nas ruas e salões ouvia-se o povo cantando: Ela só anda de vestido saco... Lógico, as enlouquecidas tardes do programa Cesar de Alencar, na Rádio Nacional, foram parar noutro sucesso: Ela é fã da Emilinha/ não sai do Cesar de Alencar/ grita o nome do Cauby/ e depois vai desmaiar/ pega a Revista do Rádio/ e começa a se abanar. Na hora em que alguém descobrir que a marchinha é um grande negócio, ela volta, acredita Cesar Fonseca. Não quero ser fatalista, mas o mundo está totalmente dominado pela mídia especializada, e você só terá um novo produto desde que ele gere dinheiro ou alguma coisa que facilite o poder a alguém. Não tenho esperanças de que a marchinha venha naturalmente do povo, como aconteceu em outros tempos, encerra.





